Prólogo
Manter a jovialidade em meio a um trabalho sombrio e sobremaneira
responsável não é façanha pequena: e, no entanto, o que seria mais
necessário do que jovialidade? Nenhuma coisa tem êxito, se nela não
está presente a petulância. Apenas o excesso de força é prova de força.
A guerra sempre foi a grande inteligência de todos os espíritos
que se voltaram muito para dentro, que se tornaram profundos demais;
até no ferimento se acha o poder curativo. Há algum tempo, minha
divisa é uma máxima cuja procedência eu subtraio à curiosidade erudita:
increscunt animi, virescit volnere virtus.3
[crescem os espíritos, o valor viceja com a ferida]
I máximas e flexas
1 A ociosidade é a mãe de toda psicologia.8 Como? A psicologia seria — um vício?
4. “Toda verdade é simples.” — Não é isso uma dupla mentira?
6. É em sua natureza selvagem que o indivíduo se refaz melhor de sua desnatureza, de sua espiritualidade...
8. Da escola de guerra da vida. — O que não me mata me fortalece.
9. Ajude a si mesmo: então, todo mundo lhe ajudará. Princípio do amor ao próximo.
10. Não cometamos covardia em relação a nossos atos! Não os abandonemos depois de fazê-los! — É indecente o remorso.
12. Tendo seu por quê? da vida, o indivíduo tolera quase todo como? —
O ser humano não aspira à felicidade; somente o inglês faz isso.11
13. O homem criou a mulher — mas de quê? De uma costela de seu Deus — de seu ideal”...
15. Homens póstumos - eu, por exemplo - são menos compreendidosdo que os temporâneos,13 mas mais ouvidos. Mais precisamente: não somos jamais compreendidos - daí nossa autoridade...
18.Quem não sabe pôr sua vontade nas coisas lhes põe ao menos um
sentido: isto é, acredita que nelas já se encontra uma vontade (princípio da “fé”).
24. Buscando pelas origens, o indivíduo torna-se caranguejo. O
historiador olha para trás; por fim, ele também acredita para trás.
25.A satisfação consigo protege até mesmo do resfriado. Alguma vez
uma mulher que se sabia bem-vestida se resfriou? — Estou supondo que
estivesse pouco vestida.
26. Desconfio de todos os sistematizadores e os evito. A vontade de sistema é uma falta de retidão.
27. A mulher é considerada profunda — por quê? porque nela jamais se
chega ao fundo. A mulher não é sequer superficial.
28.Se a mulher tem virtudes masculinas, há que fugir dela; se não tem
virtudes masculinas, ela mesma foge.
30. Raramente se comete uma precipitação apenas. Com a primeira
sempre se faz demais. Justamente por isso se comete uma segunda, em
geral — e então se faz de menos...
31.O verme se encolhe ao ser pisado. Com isso mostra inteligência.
Diminui a probabilidade de ser novamente pisado. Na linguagem da moral: humildade. —
32.Há um ódio à mentira e à dissimulação que vem de uma sensível
noção de honra; há um ódio igual que vem da covardia, sendo a
mentira proibida por um mandamento divino. Covarde demais para mentir...
33. Quão pouco é necessário para a felicidade! O som de uma gaita-de-
foles. — Sem a música a vida seria um erro. O alemão imagina até Deus cantando canções.18
34 On ne peut penser et écrire qu’assis [Não se pode pensar e escrever
senão sentado] (G. Flaubert). — Com isso te pego, niilista! A vida
sedentária19 é justamente o pecado contra o santo espírito. Apenas os
pensamentos andados têm valor.
35. Há casos em que nós, psicólogos, somos como cavalos, e ficamos
inquietos: vemos nossa própria sombra oscilar para cima e para baixo à
nossa frente. O psicólogo tem de afastar a vista de si para enxergar.
38. Você é genuíno? ou apenas um ator? Um representante? ou o que é representado? — Enfim, não passa da imitação de um ator... Segunda questão de consciência.
40.
Você é alguém que olha? Ou que põe mãos à obra? — ou que
desvia o olhar, põe-se de lado?... Terceira questão de consciência.
41.
Você quer ir junto? Ou ir à frente? Ou ir por si?... É preciso saber o
que se quer e que se quer. Quarta questão de consciência.
44.
A fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta...
II O PROBLEMA DE SÓCRATES
1 Em todos os tempos, os homens mais sábios fizeram o mesmo
julgamento da vida: ela não vale nada... Sempre, em toda parte, ouviu-se
de sua boca o mesmo tom — um tom cheio de dúvida, de melancolia,
de cansaço da vida, de resistência à vida. Até mesmo Sócrates falou, ao
morrer: “Viver — significa há muito estar doente: devo um galo a Asclépio, o salvador”
2 Juízos, juízos de valor acerca da vida, contra ou a favor,
nunca podem ser verdadeiros, afinal; eles têm valor apenas como
sintomas, são considerados apenas enquanto sintomas — em si, tais juízos são bobagens.
7.
— É a ironia de Sócrates uma expressão de revolta? de ressentimento
plebeu? Goza ele, como oprimido, de sua própria ferocidade nas
estocadas do silogismo? Vinga-se ele dos homens nobres a quem
fascina? — Como dialético, tem-se um instrumento implacável nas mãos;
pode-se fazer papel de tirano com ele; expõe-se o outro ao vencê-lo. O
dialético deixa ao adversário a tarefa de provar que não é um idiota: ele
torna furioso, torna ao mesmo tempo desamparado. O dialético tira a
potência30 do intelecto do adversário. — Como? A dialética é apenas
uma forma de vingança em Sócrates?
10.
Quando há necessidade de fazer da razão um tirano, como fez
Sócrates, não deve ser pequeno o perigo de que uma outra coisa se faça
de tirano. A racionalidade foi então percebida como salvadora, nem
Sócrates nem seus “doentes” estavam livres para serem ou não racionais
— isso era de rigueur [obrigatório], era seu último recurso. O fanatismo
com que toda a reflexão grega se lança à racionalidade mostra uma
situação de emergência: estavam em perigo, tinham uma única escolha:
sucumbir ou — ser absurdamente racionais... O moralismo dos filósofos
gregos a partir de Platão é determinado patologicamente; assim também a
sua estima da dialética. Razão = virtude = felicidade significa tão-só: é
preciso imitar Sócrates e instaurar permanentemente, contra os desejos
obscuros, uma luz diurna — a luz diurna da razão. É preciso ser
prudente, claro, límpido a qualquer preço: toda concessão aos instintos,
ao inconsciente, leva para baixo...
III
A “RAZÃO” NA FILOSOFIA
6.
Serei alvo de gratidão, se resumir uma visão tão nova e tão essencial
em quatro teses: assim facilito a compreensão, e também desafio a
contestação.Primeira tese. As razões que fizeram “este” mundo ser designado
como aparente justificam, isto sim, a sua realidade — uma outra espécie
de realidade é absolutamente indemonstrável.
Segunda tese. As características dadas ao “verdadeiro ser” das coisas
são as características do não-ser, do nada — construiu-se o “mundo
verdadeiro” a partir da contradição ao mundo real: um mundo aparente,
de fato, na medida em que é apenas uma ilusão ótico-moral.
Terceira tese. Não há sentido em fabular acerca de um “outro”
mundo, a menos que um instinto de calúnia, apequenamento e
suspeição da vida seja poderoso em nós: nesse caso, vingamo-nos da
vida com a fantasmagoria de uma vida “outra”, “melhor”.
Quarta tese. Dividir o mundo em um “verdadeiro” e um “aparente”,
seja à maneira do cristianismo, seja à maneira de Kant (um cristão
insidioso, afinal de contas), é apenas uma sugestão da décadence — um
sintoma da vida que declina... O fato de o artista estimar a aparência
mais que a realidade não é objeção a essa tese. Pois “a aparência”
significa, nesse caso, novamente a realidade, mas numa seleção, correção,
reforço... O artista trágico não é um pessimista — ele diz justamente Sim
a tudo questionável e mesmo terrível, ele é dionisíaco...
IV
COMO O “MUNDO
VERDADEIRO” SE TORNOU FINALMENTE FÁBULA
1.
O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso
— ele vive nele, ele é ele.
(A mais velha forma da idéia, relativamente sagaz, simples,
convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)
6.
Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? o aparente,
talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo
aparente!
(Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro;
apogeu da humanidade; incipit zaratustra [começa Zaratustra].)38
V
MORAL COMO
ANTINATUREZA
1.
Todas as paixões têm um período em que são meramente funestas,
em que levam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez — e um
período posterior, bem posterior, em que se casam com o espírito, se
“espiritualizam”. Antes, devido à estupidez na paixão, fazia-se guerra à
paixão mesma: conspirava-se para aniquilá-la — todos os velhos
monstros da moral são unânimes nisso: “il faut tuer les passions” [é
preciso matar as paixões]. (...)
A Igreja primitiva lutou, como se sabe, contra os
“inteligentes”, em favor dos “pobres de espírito”: como se poderia dela
esperar uma guerra inteligente contra a paixão? — A Igreja combate a
paixão com a extirpação em todo sentido: sua prática, sua “cura” é o
castracionismo. Ela jamais pergunta: “Como espiritualizar, embelezar,
divinizar um desejo?” — em todas as épocas, ao disciplinar, ela pôs a
ênfase na erradicação (da sensualidade, do orgulho, da avidez de
domínio, da cupidez, da ânsia de vingança). — Mas atacar as paixões
pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a prática da Igreja é hostil à
vida...
2.
O mesmo recurso, a mutilação, a erradicação, é instintivamente
escolhido, na luta contra um desejo, por aqueles que são muito fracos
de vontade, muito degenerados para poder impor-se moderação nele:
por aquelas naturezas que têm necessidade de La Trappe,40 falando por
metáfora (e sem metáfora —), de alguma definitiva declaração dehostilidade, de um abismo entre si mesmas e uma paixão. Os meios
radicais são indispensáveis somente para os degenerados; a fraqueza da
vontade ou, mais exatamente, a incapacidade de não reagir a um
estímulo, é ela mesma apenas outra forma de degenerescência. A
hostilidade radical, a inimizade mortal à sensualidade é um sintoma que
faz pensar: justifica especulações sobre o estado geral de alguém tão
excessivo. — Aliás, essa hostilidade, esse ódio atinge seu auge apenas
quando tais naturezas já não têm firmeza bastante sequer para a cura
radical, para a renúncia ao seu “diabo”. Observe-se a história inteira dos
sacerdotes e filósofos, incluindo os artistas: as coisas mais venenosas para
os sentidos não foram ditas pelos impotentes, tampouco pelos ascetas,
mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que teriam tido necessidade
de ser ascetas...
3.
A espiritualização da sensualidade chama-se amor: ela é um grande
triunfo sobre o cristianismo. Um outro triunfo é nossa espiritualização da
inimizade. Consiste em compreender profundamente o valor de possuir
inimigos: numa palavra, em agir e concluir de modo inverso àquele
como antes se agia e se concluía. Em todos os tempos a Igreja quis a
destruição de seus inimigos: nós, imoralistas e anticristos, vemos como
vantagem nossa o fato de a Igreja subsistir... Também na política a
inimizade se tornou agora mais espiritual — muito mais sagaz, pensativa,
moderada. Quase todo partido vê que está no interesse de sua
autoconservação que o partido oposto não esgote a força; o mesmo vale
para a grande política. Sobretudo uma nova criação, o novo Reich, por
exemplo, tem mais necessidade de inimigos que de amigos: apenas no
antagonismo ele se sente necessário, apenas no antagonismo ele se torna
necessário... Não agimos de modo diferente em relação ao inimigo
“interior”: também aí espiritualizamos a inimizade, também aí
compreendemos o seu valor. Somos fecundos apenas ao preço de
sermos ricos em antagonismos; permanecemos jovens apenas sob a
condição de que a alma não relaxe, não busque a paz... Nada se tornou
mais estranho a nós do que aquele desiderato de antigamente, o da “paz
de espírito”, o desiderato cristão; nada nos causa menos inveja do que a
vaca moral e a gorda satisfação da boa consciência. Renunciamos à vida
grande, ao renunciar à guerra... Em muitos casos, é certo, a “paz de
espírito” é apenas um mal-entendido — outra coisa, que não sabe
denominar-se mais honestamente. Eis alguns casos, sem rodeios e sem
preconceito. “Paz de espírito” pode ser, por exemplo, a suave emanação
de uma rica animalidade para o âmbito moral (ou religioso). Ou o
começo da fadiga, a primeira sombra que a noite, que toda espécie de
noite lança. Ou um sinal de que o ar está úmido, de que ventos
meridionais se aproximam. Ou a gratidão, sem o saber, por uma digestãobem-sucedida (às vezes chamada de “amor aos homens”). Ou o acalmar-
se do convalescente para quem tudo tem novo sabor e que aguarda...
Ou o estado que sucede a uma forte satisfação da paixão que nos
domina, o bem-estar de uma rara saciedade. Ou a caducidade de nossa
vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, que a
vaidade convence a adornar-se moralmente. Ou a chegada de uma
certeza, até de uma certeza terrível, após uma prolongada tensão e
tortura pela incerteza. Ou a expressão de maturidade e maestria em meio
ao agir, criar, fazer, querer, o tranqüilo respirar, a atingida “liberdade da
vontade”... Crepúsculo dos ídolos: quem sabe? Talvez também apenas uma
“paz de espírito”...
4.
Darei formulação a um princípio. Todo naturalismo na moral, ou
seja, toda moral sadia, é dominado por um instinto da vida — algum
mandamento da vida é preenchido por determinado cânon de “deves” e
“não deves”, algum impedimento e hostilidade no caminho da vida é
assim afastado. A moral antinatural, ou seja, quase toda moral até hoje
ensinada, venerada e pregada, volta-se, pelo contrário, justamente contra
os instintos da vida — é uma condenação, ora secreta, ora ruidosa e
insolente, desses instintos. Quando diz que “Deus vê nos corações”,41 ela
diz Não aos mais baixos e mais elevados desejos da vida, e toma Deus
como inimigo da vida... O santo no qual Deus se compraz é o castrado
ideal... A vida acaba onde o “Reino de Deus” começa...
Dado que se tenha compreendido o caráter hediondo dessa revolta
contra a vida, que se tornou quase sacrossanta na moral cristã,
compreendeu-se também, felizmente, uma outra coisa: o que há de
inútil, aparente, absurdo, mentiroso numa tal revolta. Uma condenação
da vida por parte do vivente é, afinal, apenas o sintoma de uma
determinada espécie de vida: se tal condenação é justificada ou não, eis
uma questão que não chega a ser levantada. Seria preciso estar numa
posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la como alguém, como
muitos, como todos os que a viveram, para poder sequer tocar no
problema do valor da vida: razões bastantes para compreender que este
é, para nós, um problema inacessível. Ao falar de valores, falamos sob a
inspiração, sob a ótica da vida: a vida mesma nos força a estabelecer
valores, ela mesma valora através de nós, ao estabelecermos valores...
Disto se segue que também essa antinatureza de moral, que concebe
Deus como antítese e condenação da vida, é apenas um juízo de valor
da vida — de qual vida? de qual espécie de vida? — Já dei a resposta:
da vida declinante, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal
como foi até hoje entendida — tal como formulada também por
Schopenhauer enfim, como “negação da vontade de vida” —, é o
instinto de décadence mesmo, que se converte em imperativo: ela diz:
“pereça!” — ela é o juízo dos condenados...
6.
Consideremos ainda, por fim, que ingenuidade é dizer “assim e assim
deveria ser o homem!”. A realidade nos mostra uma fascinante riqueza
de tipos, a opulência de um pródigo jogo e alternância de formas: e
algum pobre e vadio moralista vem e diz: “Não! o ser humano deveria
ser outro!”... Ele sabe até como este deveria ser, esse mandrião e
santarrão;42 ele desenha a si próprio no muro e diz “ecce homo!”...43
Mas, mesmo quando o moralista se volta apenas para o indivíduo e lhe
diz: “você deveria ser assim e assim!”, ele não deixa de se tornar ridículo.
O indivíduo é, de cima a baixo, uma parcela de fatum [fado, destino],
uma lei mais, uma necessidade mais para tudo o que virá e será. Dizer-
lhe “mude!” significa exigir que tudo mude, até mesmo o que ficou para
trás... E, de fato, houve moralistas conseqüentes, que queriam o ser
humano de outra forma, isto é, virtuoso, queriam-no à sua imagem, isto
é, santarrão: para isso negaram eles o mundo! Tolice nada pequena!
Imodéstia nada modesta!... A moral, na medida em que condena em si,
não por atenções, considerações, intenções da vida, é um erro específico
do qual não se deve ter compaixão, uma idiossincrasia de degenerados
que causou dano incomensurável!... Nós, imoralistas, pelo contrário,
abrimos nosso coração a toda espécie de entendimento, compreensão,
abonação. Nós não negamos facilmente, buscamos nossa distinção em
sermos afirmadores. Cada vez mais nossos olhos atentaram para essa
economia que necessita e sabe aproveitar tudo o que é rejeitado pelo
santo desatino do sacerdote, a doente razão do sacerdote, para essa
economia que há na lei da vida, que mesmo das repugnantes espécies
do santarrão, do sacerdote, do virtuoso tira sua vantagem — qual
vantagem? — Mas nós mesmos, imoralistas, somos aqui a resposta...
VI
-OS QUATRO GRANDES ERROS
6.
Todo o âmbito da moral e da religião se inscreve nesse conceito das
causas imaginárias. — “Explicação” dos sentimentos gerais
desagradáveis. Estes são determinados por seres que nos são hostis
(espíritos maus: caso mais famoso — a má compreensão das histéricas
como sendo bruxas). São determinados por ações que não podem ser
aprovadas (o sentimento do “pecado”, da “pecaminosidade”, introduzido
num mal-estar fisiológico — sempre se acha razões para estar insatisfeitoconsigo). São determinados como castigo, como pagamento por algo
que não devíamos ter feito, que não devíamos ter sido (generalizado por
Schopenhauer, de forma impudente, numa tese em que a moral aparece
como o que é, como verdadeira envenenadora e caluniadora da vida:
“Toda grande dor, seja física, seja espiritual, exprime o que merecemos;
pois não poderia nos sobrevir se não a merecêssemos”, O mundo como
vontade e representação, ii , 666).47 São determinados como
conseqüências de atos irrefletidos que têm desfecho ruim (— os afetos,
os sentidos colocados como causa, como “culpáveis”; crises fisiológicas
interpretadas, com ajuda de outras crises, como “merecidas”). —
“Explicação” dos sentimentos gerais agradáveis. Estes são determinados
pela confiança em Deus. São determinados pela consciência das boas
ações (a chamada “boa consciência”, um estado fisiológico que às vezes
semelha uma boa digestão a ponto de ser com ela confundido). São
determinados pelo desenlace feliz de um empreendimento (— ingênua
falácia: o desenlace feliz de uma empresa não cria sentimentos gerais
agradáveis num hipocondríaco ou num Pascal). São determinados por
fé, amor, esperança — as virtudes cristãs.48 — Na verdade, todas essas
supostas explicações são estados resultantes e, por assim dizer, traduções
de sentimentos de prazer ou desprazer em um falso dialeto: pode-se ter
esperança porque o sentimento fisiológico básico está novamente rico e
forte; confia-se em Deus porque o sentimento de força e plenitude dá
tranqüilidade. — A moral e a religião inscrevem-se inteiramente na
psicologia do erro: em cada caso são confundidos efeito e causa; ou a
verdade é confundida com o efeito do que se acredita como
verdadeiro; ou um estado da consciência, com a causalidade desse
estado.
7.
Erro do livre-arbítrio. — Hoje não temos mais compaixão pelo
conceito de “livre-arbítrio”: sabemos bem demais o que é — o mais
famigerado artifício de teólogos que há, com o objetivo de fazer a
humanidade “responsável” no sentido deles, isto é, de torná-la deles
dependente... Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo “tornar
responsável”. — Onde quer que responsabilidades sejam buscadas,
costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é
despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele
modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a
doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da
punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a
psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores,
os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o
direito de impor castigos — ou criar para Deus esse direito... Os homens
foram considerados “livres” para poderem ser julgados, ser punidos —ser culpados: em conseqüência, toda ação teve de ser considerada como
querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (— assim, a
mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões
psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma...). Hoje,
quando encetamos o movimento inverso, quando nós, imoralistas,
buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito
de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história,
a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos,
adversários mais radicais do que os teólogos, que, mediante o conceito
de “ordem moral do mundo”, continuam a empestear a inocência do
vir-a-ser com “culpa” e “castigo”. O cristianismo é uma metafísica do
carrasco...
8.
Qual pode ser a nossa doutrina? — Que ninguém dá ao ser humano
suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e
ancestrais, nem ele próprio (— o contra-senso dessa última idéia rejeitada
foi ensinado, como “liberdade inteligível”, por Kant, e talvez já por
Platão).49 Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou
assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade
do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e
será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma
finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal
de ser humano” ou um “ideal de felicidade” ou um “ideal de
moralidade” — é absurdo querer empurrar o seu ser para uma
finalidade qualquer.50 Nós é que inventamos o conceito de “finalidade”:
na realidade não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um
pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo — não há nada que
possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria
julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do
todo! — O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o
modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o
mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”,
apenas isto é a grande libertação — somente com isso é novamente
estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de “Deus” foi, até
agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a
responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo. —
VII
OS “MELHORADORES”
DA HUMANIDADE
3 Tomemos o outro caso do que chamam moral, o do cultivo de uma
determinada raça e espécie. O mais formidável exemplo dele é fornecido
pela moral indiana, sancionada como religião na forma da “Lei de
Manu”.55 Aí se propõe a tarefa de cultivar não menos que quatro raças
de vez: uma sacerdotal, uma guerreira, uma de mercadores e agricultores
e, por fim, uma raça de servidores, os sudras. Evidentemente, aí já não
estamos entre domadores de animais: uma espécie de homem cem vezes
mais branda e mais razoável é o pressuposto para simplesmente
conceber o plano de tal cultivo. Respira-se aliviado, quando se deixa o
ar cristão de doença e masmorra e se adentra esse mundo mais são, mais
elevado, mais amplo. Quão miserável é o Novo Testamento ao lado de
Manu, como cheira mal! — Mas também essa organização tinha
necessidade de ser terrível — dessa vez não em luta com a besta, mas
com a noção oposta a essa, o homem do não-cultivo, o homem-
mixórdia, o chandala. E novamente não teve outro recurso para torná-lo
inofensivo, fraco, a não ser torná-lo doente — era a luta com o “grande
número”. Talvez nada contrarie mais nossa sensibilidade do que essas
medidas de proteção da moral indiana. O terceiro edito, por exemplo
(Avadana-Sastra i ), o “dos vegetais impuros”, decreta que a única
alimentação permitida aos chandalas seja alho e cebola, visto que as
escrituras sagradas proíbem dar-lhes cereais ou frutos que contenham
grãos, ou água, ou fogo. O mesmo edito estabelece que a água que
necessitam não pode ser retirada dos rios, nem das fontes ou dos lagos,
mas somente das vias de acesso aos pântanos e dos buracos deixados
pelos pés dos animais. Igualmente lhes é proibido lavar sua roupa e
lavar a si mesmos, pois a água que lhes é concedida graciosamente pode
ser usada apenas para matar a sede. Por fim, há a proibição de as
mulheres sudras assistirem as mulheres chandalas no parto, e também de
essas últimas assistirem uma a outra... — O resultado de tal policiamento
sanitário não deixou de aparecer: epidemias assassinas, horríveis doenças
venéreas e, depois, novamente a “lei da faca”, prescrevendo a
circuncisão dos meninos e a remoção dos pequenos lábios das meninas.— O próprio Manu diz: “Os chandalas são fruto do adultério, do incesto
e do crime (— esta é a conseqüência necessária do conceito de cultivo).
Eles só devem ter por vestimenta os farrapos dos cadáveres; por louça,
vasilhames quebrados; por adornos, pedaços velhos de ferro; por culto
religioso, somente os maus espíritos. Eles devem errar entre um lugar e
outro sem descanso. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita
e servir-se da mão direita para escrever: o uso da mão direita e da escrita
da esquerda para a direita é reservado aos virtuosos, às pessoas de raça”
4.
Essas disposições são muito instrutivas: nelas temos a humanidade
ariana, totalmente pura, totalmente primordial — vemos que o conceito
de “sangue puro” é o oposto de um conceito inócuo. Por outro lado,
torna-se claro em qual povo se eternizou o ódio, o ódio de chandala a
essa “humanidade”, onde ele se tornou religião, onde se tornou gênio...
Desse ponto de vista os evangelhos são um documento de primeira
ordem; e mais ainda o livro de Enoque. — O cristianismo, de raiz
judaica e compreensível apenas como produto deste solo, representa o
movimento oposto a toda moral do cultivo, da raça, do privilégio: — é a
religião antiariana par excellence [por excelência]: o cristianismo,56 a
tresvaloração de todos os valores arianos, o triunfo dos valores
chandalas, o evangelho pregado aos pobres, aos baixos, a revolta geral
de todos os pisoteados, miseráveis, malogrados e desfavorecidos contra a
“raça” — a imorredoura vingança chandala como religião do amor...
5 A moral do cultivo e a moral da domesticação são inteiramente
dignas uma da outra nos meios de se imporem: podemos colocar como
princípio máximo que, para fazer moral, é preciso ter a vontade
incondicional do oposto. Este é o grande, o inquietante problema que
persegui mais longamente: a psicologia dos “melhoradores” da
humanidade. Um fato pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada
pia fraus [mentira piedosa],57 permitiu-me o primeiro acesso a este
problema: a pia fraus, a herança de todos os filósofos e sacerdotes que
“melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio,58
nem os mestres judeus e cristãos duvidaram jamais de seu direito à
mentira. Não duvidaram de outros direitos... Expresso numa fórmula,
pode-se dizer: todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a
humanidade foram fundamentalmente imorais.
VIII
O QUE FALTA AOS ALEMÃES
1 Entre os alemães não basta ter espírito nos dias de hoje: é preciso
tomá-lo, arrogar-se espírito...
Talvez eu conheça os alemães, talvez possa até dizer-lhes algumas
verdades. A nova Alemanha representa um enorme quantum de
capacidades herdadas e adquiridas, de modo que por algum tempo ela
pode gastar prodigamente o tesouro acumulado de energias. Não foi
uma cultura elevada que com ela ganhou ascendência, menos ainda um
gosto delicado, uma nobre “beleza” dos instintos; mas virtudes mais viris
do que as que qualquer outro país da Europa é capaz de mostrar.
Muito ânimo e respeito de si própria, muita segurança no trato, na
reciprocidade dos deveres, muita laboriosidade, muita perseverança — e
uma moderação herdada, que carece antes de aguilhão que de freios.
Acrescento que aqui ainda se obedece, sem que a obediência humilhe...
E ninguém despreza seu adversário...
Vê-se que quero ser justo com os alemães: nisso não gostaria de ser
infiel a mim mesmo — também devo, portanto, colocar minha objeção a
eles. Paga-se caro por chegar ao poder: o poder imbeciliza... Os alemães
— já foram chamados de povo de pensadores: ainda pensam
atualmente? — Os alemães agora se entediam com o espírito, eles agora
desconfiam do espírito, a política devora toda seriedade perante coisas
realmente espirituais. “Alemanha, Alemanha acima de tudo”59 — este foi,
receio, o fim da filosofia alemã... “Existem filósofos alemães? Existem
poetas alemães? Existem bons livros alemães?”, perguntam-me na Europa.
Eu enrubesço, mas, com a valentia que me é própria mesmo em casos
desesperados, respondo: “Sim, Bismarck!”.60 — Deveria eu também
confessar que livros são lidos atualmente?... Maldito instinto de
mediocridade! —
2.
— O que o espírito alemão poderia ser, quem já não teve seus
pensamentos melancólicos a respeito disso? Mas esse povo se imbeciliza
voluntariamente há quase mil anos: em nenhum outro lugar se abusou
tão viciosamente dos dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o
cristianismo. Ultimamente se juntou a eles um terceiro, que sozinho
bastaria para liquidar toda sutil e audaz agilidade do espírito, a música,nossa constipada e constipadora música alemã. — Quanta enfadonha
gravidade, paralisia, umidade, robe de dormir,61 quanta cerveja há na
inteligência alemã! Como é possível que homens jovens, que devotam a
existência aos objetivos mais espirituais, não percebam dentro de si o
primeiro instinto da espiritualidade, o instinto de autoconservação do
espírito — e bebam cerveja?... O alcoolismo da juventude instruída talvez
não chegue a pôr em dúvida sua instrução — pode-se até ser um grande
erudito, sem ter espírito —, mas em qualquer outro aspecto será um
problema. — Onde não seria ela encontrada, a suave degeneração que a
cerveja produz no espírito? Certa vez, num caso que quase se tornou
célebre, eu pus o dedo numa tal degeneração — a de nosso primeiro
livre-pensador alemão, o inteligente David Strauss, em autor de um
evangelho de cervejaria e de uma “nova fé”... Não foi em vão que ele
fez suas juras à “graciosa morena” em versos — fidelidade até a
morte...62
4
Faça-se um breve cálculo: não é somente palpável que a cultura
alemã declina, também não falta razão suficiente67 para isso. Ninguém,
afinal, pode despender mais do que aquilo que tem — isso vale para
indivíduos, isso vale para povos. Se a pessoa se dedica a poder, grande
política, economia, comércio mundial, parlamentarismo, interesses
militares — se despende para esse lado o quantum de entendimento,
seriedade, vontade, auto-superação que é, então ele faltará no outro
lado. A cultura e o Estado — não haja engano a respeito disso — são
antagonistas: “Estado cultural” é apenas uma idéia moderna. Um vive do
outro, um prospera à custa do outro. Todas as grandes épocas da
cultura são tempos de declínio político: o que é grande no sentido
cultural é apolítico, mesmo antipolítico. — O coração de Goethe abriu-se
ante o fenômeno Napoleão — e fechou-se ante as “Guerras de
Libertação”...68 No mesmo instante em que a Alemanha se alça como
grande potência, a França adquire renovada importância como potência
cultural. Já agora, muita seriedade nova, muita paixão nova do espírito
migrou para Paris; a questão do pessimismo, por exemplo, a questão
Wagner, quase todas as questões psicológicas e artísticas são lá
examinadas de modo incomparavelmente mais sutil e cabal do que na
Alemanha — os alemães são mesmo incapazes dessa espécie de
seriedade. — Na história da cultura européia, a ascensão do Reich
significa sobretudo uma coisa: uma mudança do centro de gravidade.
Em toda parte se sabe: no principal — que continua sendo a cultura —
os alemães já não são considerados. As pessoas perguntam: vocês têm ao
menos um espírito que conte para a Europa? Como o seu Goethe, seu
Hegel, seu Heinrich Heine, seu Schopenhauer contava? — Não cessa de
causar espanto que não haja mais um único filósofo alemão.
5 O inteiro sistema de educação superior da Alemanha perdeu o mais
importante: o fim, assim como os meios para o fim. Esqueceu-se que
educação, formação é o fim — e não “o Reich” —, que para esse fim é
necessário o educador — e não professores de ginásio e eruditos
universitários... Precisa-se de educadores que sejam eles próprios
educados, espíritos superiores, nobres, provados a cada momento,
provados pela palavra e pelo silêncio, de culturas maduras, tornadas
doces — não os doutos grosseirões que ginásio e universidade hoje
oferecem aos jovens como“amas-de-leite superiores”. Faltam os
educadores, fora as mais raras exceções, a primeira condição para a
educação: daí o declínio da cultura alemã. — Uma dessas raríssimas
exceções é meu venerável amigo Jacob Burckhardt,69 na Basiléia:
sobretudo a ele a Basiléia deve sua preeminência em humanidade. — Oque as “escolas superiores” da Alemanha realmente alcançam é um brutal
adestramento, a fim de, com a menor perda possível de tempo, tornar
útil, utilizável para o Estado um grande número de homens jovens.
“Educação superior” e grande número — duas coisas que se
contradizem de antemão. Qualquer educação superior pertence apenas à
exceção: é preciso ser privilegiado para ter direito a tão elevado
privilégio. Todas as coisas grandes, todas as coisas belas não
podemjamais ser umbemcomum: pulchrum est paucorum hominum [o
belo é para poucos].70 — O que determina o declínio da cultura alemã?
O fato de “educação superior” não mais ser prerrogativa — o
democratismo da “formação” tornada “geral”, vulgar...71 Sem esquecer
que privilégios militares impõem formalmente a excessiva freqüentação
das escolas superiores, ou seja, sua decadência. — A ninguém mais é
dado, na Alemanha de hoje, proporcionar aos filhos uma educação
nobre: nossas escolas “superiores” são todas direcionadas para a mais
ambígua mediocridade, com seus professores, planos de ensino, metas
de ensino. E em toda parte vigora uma pressa indecente, como se algo
fosse perdido se o jovemde 23 anos ainda não estivesse “pronto”, ainda
não tivesse resposta para a “pergunta-mor”: qual profissão? — Um tipo
superior de homem, permitam-me dizer, não gosta de “profissão”,
justamente porque sabe que tem “vocação”...72 Ele tem tempo, toma
tempo, não pensa em ficar “pronto” — aos trinta anos alguém é, no
sentido da cultura elevada, um iniciante, uma criança.—São umescândalo
os nossos ginásios abarrotados, nossos sobrecarregados, estupidificados
professores ginasiais: para tomar a defesa dessas condições, como
recentemente fizeram os professores de Heidelberg, para isso pode haver
causas —razões não há
6 Agora apresentarei, para não faltar com minha natureza, que é
afirmativa e só indiretamente, só involuntariamente tem algo a ver com
a contradição e a crítica, as três tarefas pelas quais se necessita de
educadores. Deve-se aprender a ver, aprender a pensar, aprender a falar
e escrever: o objetivo, nos três casos, é uma cultura nobre. — Aprender
a ver — habituar o olho ao sossego, à paciência, a deixar as coisas se
aproximarem; adiar o julgamento, aprender a rodear e cingir o caso
individual de todos os lados. Esta é a primeira preparação para a
espiritualidade: não reagir de imediato a um estímulo, e sim tomar em
mãos os instintos inibidores, excludentes. Aprender a ver, tal como o
entendo, é aproximadamente o que a linguagem não filosófica chama
de vontade forte: o essencial aí é não “querer”, ser capaz de prorrogar a
decisão. Toda não-espiritualidade, toda vulgaridade se baseia na
incapacidade de resistir a um estímulo — tem-se que reagir, segue-se
todo impulso. Em muitos casos, esse “ter que” já é enfermidade, declínio,
sintoma de esgotamento — quase tudo o que a crueza não filosófica
designa como “vício” é apenas essa incapacidade fisiológica de não
reagir. — Uma aplicação prática do ter aprendido a ver: como
“aprendente” a pessoa se torna lenta, desconfiada, recalcitrante.
Inicialmente deixa aproximarem-se coisas desconhecidas, novas de todo
tipo, com hostil tranqüilidade — recuará as mãos diante delas. Manter as
portas todas abertas, servilmente prostrar-se ante cada pequenino fato,
sempre estar disposto a lançar-se no lugar de, a mergulhar nos outros e
em outras coisas, em suma, a célebre “objetividade” moderna, é mau
gosto, é ignóbil por excelência
IX
INCURSÕES DE UM
EXTEMPORÂNEO
1 Meus impossíveis. — Sêneca: ou o toureador da virtude. —
Rousseau: ou o retorno à natureza in impuris naturalibus. — Schiller:
ou o trombeteiro moral de Säckingen. — Dante: ou a hiena que escreve
poesia nos túmulos. — Kant: ou cant como caráter inteligível. — Victor
Hugo: ou o farol no mar do absurdo. — Liszt: ou a escola da agilidade
— com as mulheres. — George Sand: ou lactea ubertas; em linguagem
clara: a vaca leiteira com “belo estilo”. — Michelet: ou o entusiasmo que
despe a jaqueta... Carlyle: ou pessimismo como almoço mal digerido. —
John Stuart Mill: ou a clareza ofensiva. — Les frères de Goncourt: ou os
dois Ajaxes em luta com Homero. Música de Offenbach. — Zola: ou “a
alegria de cheirar mal”.
2 Renan. — Teologia, ou a corrupção da razão pelo “pecado original”
(o cristianismo). Testemunha disso é Renan, que, quando arrisca um Sim
ou um Não de natureza mais geral, erra o alvo com penosa
regularidade. Ele gostaria, por exemplo, de unir la science [a ciência] e la
noblesse [nobreza]: mas a science é coisa da democracia, isso é algo bem
palpável. Ele deseja, com ambição nada pequena, representar um
aristocratismo do espírito: mas, ao mesmo tempo, põe-se de joelhos ante
a doutrina oposta, o évangile des humbles [evangelho dos humildes], e
não apenas de joelhos...75 De que serve todo o livre-pensamento, toda a
modernidade, zombaria e volúvel flexibilidade,76 se em suas entranhas o
indivíduo permanece cristão, católico e até sacerdote! Renan tem sua
inventividade na sedução, exatamente como um jesuíta e um confessor;
à sua espiritualidade não falta o amplo sorriso de padre — como todo
sacerdote, ele se torna perigoso apenas quando ama. Ninguém o iguala
nisso, em adorar de uma maneira mortalmente perigosa... Esse espírito de
Renan, um espírito que enfraquece o nervo, é uma fatalidade mais para a
pobre, doente França, doente da vontade
3 Sainte-Beuve. — Nada viril nele; cheio de mesquinha raiva a todos
os espíritos viris. Vagueia ao redor, sutil, curioso, entediado, espreitador
— no fundo, uma personalidade de mulher, com feminina avidez de
vingança e feminina sensualidade. Como psicólogo, um gênio da
médisance [maledicência]; inesgotavelmente rico em meios para isso;
ninguém sabe, como ele, misturar veneno e louvor. Plebeu nos instintos
mais baixos, e aparentado ao ressentiment de Rousseau: por conseguinte,
romântico — pois debaixo de todo romantisme rosna e anseia o instinto
de vingança de Rousseau. Revolucionário, mas ainda toleravelmente
refreado pelo medo. Sem liberdade perante tudo o que tem força
(opinião pública, Academia, corte, até mesmo Port-Royal).77 Irritado com
tudo o que é grande nos homens e nas coisas, com tudo o que acredita
em si mesmo. Poeta e meio-mulher suficiente para perceber o que é
grande como poder; sempre encolhido como aquele famoso verme,78
pois continuamente se sente pisado. Enquanto crítico, sem medida,
firmeza e medula, com a língua do libertin [libertino] cosmopolita para
muitas coisas, mas sem a coragem sequer para admitir a libertinage.
Enquanto historiador, sem filosofia, sem o poder do olhar filosófico —
por isso rejeitando a tarefa de julgar em todas as questões principais,
exibindo a “objetividade” como máscara. Comporta-se diferentemente em
relação a todas as coisas em que um gosto refinado, experimentado é a
instância suprema: então tem realmente a coragem e o prazer consigo
mesmo — então é mestre. — Em alguns aspectos, uma versão preliminar
de Baudelaire. —79
12 Li a vida de Thomas Carlyle, esta farce [farsa] inconsciente e
involuntária, essa interpretação heróico-moral de estados dispépticos. —
Carlyle, um homem de palavras e atitudes fortes, um retor por
necessidade, constantemente espicaçado pelo anseio de uma forte fé e
pelo sentimento da incapacidade para ela (— nisso um típico
romântico!). O anseio de uma forte fé não é a prova de uma forte fé,
antes o contrário. Tendo-a, podemos permitir-nos o luxo do ceticismo:
somos seguros o bastante, firmes o bastante, “ligados” o bastante para
isso. Carlyle entorpece algo em si mediante o fortissimo de sua veneração
por homens de forte fé e sua ira contra os menos simples: ele necessita
de barulho. Uma constante e apaixonada desonestidade consigo — eis o
seu proprium, com isso ele é e permanece interessante. — Sem dúvida,
na Inglaterra ele é admirado precisamente por sua honestidade... Ora,
isso é bem inglês; e, considerando-se que os ingleses são o povo do
perfeito cant [artificialismo, hipocrisia], é até mesmo justo, não apenas
compreensível. No fundo, Carlyle é um ateísta inglês que busca sua
honra em não o ser.
14 Anti-Darwin. — No que toca à célebre “luta pela vida”, até agora me
parece apenas afirmada e não provada. Ela acontece, mas como
exceção; o aspecto geral da vida não é a necessidade, a fome, mas antes
a riqueza, a exuberância, até mesmo o absurdo esbanjamento —
quando se luta, luta-se pelo poder... Não se deve confundir Malthus93
com a natureza. — Mas, supondo que haja essa luta — e, de fato, ela
ocorre —, infelizmente ela resulta no contrário do que deseja a escola
de Darwin, do que talvez se poderia desejar juntamente com ela: ou seja,
em detrimento dos fortes, dos privilegiados, das felizes exceções. As
espécies não crescem na perfeição: os fracos sempre tornam a dominar
os fortes — pois são em maior número, são também mais inteligentes...
Darwin esqueceu o espírito (— isto é inglês!), os fracos têm mais espírito...
É preciso ter necessidade de espírito para adquirir espírito — ele é
perdido, quando não mais se necessita dele. Quem tem força dispensa o
espírito (— “deixem de lado!”, pensa-se hoje na Alemanha, “o Reich
continuará nosso”...).94 Entendo por espírito, como se vê, a cautela, a
paciência, a astúcia, a dissimulação, o grande autodomínio e tudo o que
seja mimicry [mimetismo] (esse último compreende boa parte do que se
chama virtude)
17.
Os homens mais espirituais, pressupondo-se que sejam os mais
corajosos, também experimentam as mais dolorosas tragédias: mas
justamente por isso eles honram a vida, porque ela lhes opõe o seu
máximo antagonismo.
18.
Sobre a “consciência intelectual”. — Nada me parece hoje mais raro
do que a verdadeira hipocrisia. É grande minha suspeita de que o ar
brando de nossa cultura não seja favorável a esta planta. A hipocrisia é
própria das épocas de fé robusta: quando, mesmo havendo a coação
para exibir outra fé, não se abandonava a fé que se tinha. Hoje em dia
ela é abandonada; ou, coisa mais habitual, a ela é acrescentada uma
segunda fé — em qualquer dos casos, continua-se honesto. Sem dúvida,
hoje é possível um número de convicções bem maior do que antes:
“possível” quer dizer permitido, ou seja, inofensivo. Daí nasce a
tolerância consigo mesmo. — A tolerância consigo permite várias
convicções: essas convivem pacificamente — cuidam, como todos hoje
em dia, de não comprometer-se. Como nos comprometemos hoje emdia? Tendo coerência. Andando em linha reta. Falando coisas que
admitem menos de cinco sentidos. Sendo genuínos... É grande meu
temor de que o homem moderno seja simplesmente preguiçoso demais
para alguns vícios: de modo que esses literalmente se extinguem. Todo
mal que depende de uma vontade forte — e talvez não haja mal sem a
força da vontade — degenera em virtude, neste nosso ar tépido... Os
poucos hipócritas que conheci estavam imitando a hipocrisia: eram
atores, como uma em cada dez pessoas nos dias de hoje. —
19
Belo e feio. — Nada é mais condicionado, digamos limitado, do que
nosso sentimento do belo. Quem quiser pensar sobre ele separado do
prazer do ser humano com o ser humano logo verá o chão ceder sob
os pés. O “belo em si” é uma mera expressão, não é sequer um conceito.
No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição; em casos
seletos, adora nele a si mesmo. Uma espécie não pode senão dizer Sim a
si mesma desse modo. Seu instinto mais profundo, o da autopreservação
e auto-expansão, ainda se manifesta em tais sublimidades. O ser humano
acredita que o mundo está repleto de beleza — ele esquece de si mesmo
como causa dela. Somente ele dotou o mundo de beleza, oh, de uma
beleza muito humana, demasiado humana... No fundo, o ser humano se
espelha nas coisas, acha belo tudo o que lhe devolve a sua imagem: o
juízo “belo” é sua vaidade de espécie... Pois o cético pode ouvir uma
leve suspeita lhe sussurrar esta pergunta: o mundo realmente se tornou
belo pelo fato de o ser humano tomá-lo por belo? Ele o humanizou:
isso é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que justamente o
ser humano constitua o modelo do belo. Quem sabe como ele se sairia
aos olhos de um mais elevado juiz do gosto? Talvez ousado? Talvez até
divertido? Talvez um pouco arbitrário?... “Ó divino Dionísio, por que me
puxas as orelhas?”, perguntou Ariadne ao seu filosófico amante, num
daqueles célebres diálogos em Naxos. “Acho um certo humor nas tuas
orelhas, Ariadne: por que não são elas ainda mais compridas?”.97
20.
Nada é belo, apenas o ser humano é belo: toda a estética se baseia
nessa ingenuidade, ela é sua verdade primeira. Acrescentemos de
imediato a segunda: nada é feio, exceto o ser humano que degenera —
com isso delimitamos a esfera do julgamento estético. —
Fisiologicamente, tudo o que é feio debilita e aflige o ser humano.
Recorda-lhe declínio, perigo, impotência; faz com que realmente perca
energia. Pode-se medir com um dinamômetro o efeito do que é feio.
Sempre que alguém está abatido, pode sentir a proximidade de algo“feio”.98 Seu sentimento de poder, sua vontade de poder, sua coragem,
seu orgulho — tudo isso cai com o feio, aumenta com o belo... Num
caso e no outro tiramos uma conclusão: as premissas para ela são
acumuladas de forma abundante no instinto. O feio é entendido como
sinal e sintoma de degenerescência: aquilo que recorda minimamente a
degenerescência produz em nós o juízo de “feio”. Todo indício de
esgotamento, de idade, de peso, de cansaço, toda espécie de falta de
liberdade, como a convulsão, como a paralisia, sobretudo o cheiro, a
cor, a forma da dissolução, da decomposição, ainda que na extrema
rarefação de símbolo — tudo provoca a mesma reação, o juízo de valor
“feio”. Um ódio irrompe: o que odeia aí o ser humano? Não há dúvida:
o declínio de seu tipo. Ele odeia a partir do mais profundo instinto da
espécie: nesse ódio há arrepio, cautela, profundidade, longividência — é
o mais profundo ódio que existe. Por causa dele a arte é profunda...
28.
Os “impessoais” tomam a palavra. — “Nada é mais fácil, para nós, do
que ser sábios, pacientes, superiores. Nós estilamos o óleo da indulgência
e da compaixão, nós somos absurdamente justos, nós perdoamos tudo.
Precisamente por isso deveríamos ser mais rigorosos conosco;
precisamente por isso deveríamos cultivar, de quando em quando, um
pequeno afeto, um pequeno vício afetivo. Talvez seja duro para nós; e
podemos até rir, entre nós, do aspecto que então assumimos. Mas de
que adianta! Já não temos nenhuma outra forma de auto-superação: este
é nosso ascetismo, nossa penitência...” Tornar-se pessoal — a virtude do
“impessoal”...
37Se nos tornamos mais morais. — Contra a minha noção de “além do
bem e do mal”, como era de esperar, levantou-se toda a ferocidade do
embrutecimento moral, que na Alemanha, como se sabe, é tida como a
própria moral: eu teria belas histórias a contar a respeito disso.
Sobretudo me instaram a refletir sobre a “inegável superioridade” de
nossa época no julgamento moral, o progresso realmente obtido nesse
ponto: comparado a nós, um César Bórgia120 não poderia
absolutamente ser apresentado como um “homem mais elevado”, uma
espécie de super-homem, tal como faço... Um redator suíço, do Bund,
chegou a “compreender” o sentido de meu livro, não sem expressar seurespeito pela coragem para tal ousadia, no fato de eu propor a abolição
de todo sentimento decente. Muito obrigado!121 — Permito-me, como
resposta, lançar a pergunta se realmente nos tornamos mais morais. O fato
de todos acreditarem nisso já constitui uma objeção a isso... Nós,
homens modernos, muito delicados, muito suscetíveis, mostrando e
recebendo mil considerações, imaginamos realmente que essa branda
humanidade que representamos, essa conquistada unanimidade na
indulgência, na solicitude, na mútua confiança, seja um positivo
progresso, que com isso deixamos muito para trás os homens do
Renascimento. Mas assim pensa toda época, assim tem de pensar. O certo
é que não podemos nos colocar, ou sequer nos pensar, nas condições
do Renascimento: nossos nervos não agüentariam aquela realidade,
muito menos nossos músculos. No entanto, essa incapacidade não
demonstra um progresso, mas apenas outra constituição, mais tardia,
mais fraca, delicada, suscetível, a partir da qual se produz
necessariamente uma moral rica em consideração. Se dispensássemos
mentalmente nossa delicadeza e natureza tardia, nosso envelhecimento
fisiológico, nossa moral da “humanização” perderia de imediato seu
valor — em si, nenhuma moral tem valor —: até inspiraria desprezo em
nós. Por outro lado, não há dúvida de que nós, modernos, com nossa
humanidade espessamente acolchoada, que de modo nenhum quer
bater em alguma pedra, ofereceríamos aos contemporâneos de César
Bórgia uma comédia de morrer de rir. De fato, somos involuntariamente
cômicos além de qualquer medida, com nossas “virtudes” modernas... A
diminuição dos instintos hostis e que geram desconfiança — este seria o
nosso “progresso” — representa só uma das conseqüências, na
diminuição geral da vitalidade: custa cem vezes mais esforço, mais
cautela, levar a efeito uma existência tão condicional e tardia. As pessoas
se ajudam umas às outras; até certo ponto cada qual é doente, cada qual
é enfermeiro. Isso, então, chama-se “virtude” —: entre seres que
conheciam a vida de outra forma, mais plena, mais pródiga, mais
transbordante, isto seria chamado diferentemente, talvez “covardia”,
“mesquinhez”, “moral de velhas senhoras”... Nossa amenização dos
costumes — eis minha tese, eis, se quiserem, minha inovação — é uma
conseqüência do declínio; a natureza dura e terrível do costume pode
ser, ao contrário, conseqüência do excesso de vida: pois então muita
coisa pode ser arriscada, desafiada e também esbanjada. O que antes era
tempero da vida, para nós seria veneno... Para ser indiferentes —
também isso é uma forma de força —, somos igualmente velhos demais,
tardios demais: nossa moral da simpatia,122 contra a qual fui o primeiro
a advertir, isso que pode ser chamado impressionisme morale,123 é mais
uma expressão da superexcitabilidade fisiológica que é própria de tudo
o que é décadent. Esse movimento, que buscou se apresentar
cientificamente com a moral da compaixão, de Schopenhauer —
tentativa bastante infeliz! —, é o verdadeiro movimento de décadence na
moral, e, como tal, tem profunda afinidade com a moral cristã. Asépocas fortes, as culturas nobres vêem como algo desprezível a
compaixão, o “amor ao próximo”, a falta de amor-próprio e de si
próprio. — As épocas devem ser medidas conforme suas forças positivas
— e nisso a época do Renascimento, tão pródiga e tão rica em
fatalidade, surge como a última grande época, e nós, modernos, com
nosso angustiado cuidado-próprio e amor ao próximo, com nossas
virtudes de trabalho, despretensão, legalidade, cientificidade —
acumuladores, econômicos, maquinais —, como uma época fraca...
Nossas virtudes são determinadas, provocadas por nossa fraqueza... A
“igualdade”, um certo assemelhamento real que acha expressão apenas
na teoria de “direitos iguais”, é essencialmente própria do declínio: o
fosso entre um ser humano e outro, entre uma classe e outra, a
multiplicidade de tipos, a vontade de ser si próprio, de destacar-se, isso
que denomino páthos da distância é característico de toda época forte.
A tensão, a distância entre os extremos torna-se hoje cada vez menor —
por fim, os próprios extremos se apagam até atingir a semelhança...
Todas as nossas teorias e constituições de Estado, sem excluir
absolutamente o “Reich” alemão, são decorrências, conseqüências
necessárias do declínio; o inconsciente efeito da décadence assenhorou-
se até dos ideais de ciências particulares. Minha objeção a toda a
sociologia de Inglaterra e França continua sendo que ela conhece por
experiência apenas as formas decaídas de sociedade, e muito
ingenuamente toma os próprios instintos decaídos como norma dos
juízos de valor sociológicos. A vida declinante, o decréscimo de toda
força organizadora, isto é, separadora, abridora de fossos, sub- e
sobreordenadora, é formulada como um ideal na sociologia de hoje...
Nossos socialistas são décadents, mas também o sr. Herbert Spencer124 é
um décadent — ele vê o triunfo do altruísmo como algo desejável!...