Saturday, November 3, 2018

Epidemia de dança: Dançomania




Tudo começou em um dia, aparentemente qualquer, em 1518 em Estrasburgo (França). Uma mulher identificada como Senhora Troffea começou a dançar sozinha e sem música no meio de uma rua.
Inicialmente, vizinhos pensaram que Troffea só estava tentando se exibir e chegaram a bater palmas e a emitir gritos de incentivo. Aos poucos, eles foram percebendo que havia algo errado.
Era o início do que ficaria conhecido como "epidemia de dança", que está completando 500 anos.
Vítimas da 'epidemia de dança' são controlados por outros moradores de Estrasburgo
Vítimas da 'epidemia de dança' são controlados por outros moradores de Estrasburgo Foto: Reprodução
Troffea não parava de dançar e continuou assim por seis dias, inexplicavelmente. Como também foi inexplicável o contágio. Em uma semana, outras dezenas de pessoas também estavam dançando de forma incessante em Estrasburgo. Nada as fazia parar. As vítimas interpretavam passos de dança e não apenas se contorciam de forma aleatória.
De dezenas a centenas em questão de dias. No auge da "praga" havia 400 dançarinos compulsivos. Por exaustão, derrame cerebral e infarto, as pessoas começaram a morrer de tanto dançar. Jornais da época citam que a "epidemia" chegou a matar 15 moradores por dia. Não se sabe se Troffea estava entre as dezenas de mortos.
A "doença" parou de repente, da mesma forma que surgira. Até hoje, estudiosos discutem se o caso se tratou de uma doença real ou se foi um fenômeno social, com uma forma de contágio cultural por meio da dança.
Chegou-se a especular que um fungo do centeio estava por trás da dançomania, como foi catalogada a "epidemia". Porém, a teoria foi desmentida pelo historiador John Waller. Segundo ele, o fungo pode causar alucinações, mas não movimentos corporais descontrolados.
A versão da histeria coletiva, uma fuga em momento de penúria na cida francesa, é a mais aceita.
O primeio caso de surto de dança coletiva foi registrado em Bernburg (Alemanha), no ano de 1020. Em volta de uma igreja, cerca de 20 pessoas coemçaram a dançar sem parar, sem explicação e sem qualquer motivação sonora.

https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/epidemia-de-danca-que-matou-dezenas-de-pessoas-na-franca-completa-500-anos-22878685.html

Crepúsculo dos Idolos - Nietzsche



Prólogo

Manter a jovialidade em meio a um trabalho sombrio e sobremaneira
responsável  não  é  façanha  pequena:  e,  no  entanto,  o  que  seria  mais
necessário  do  que  jovialidade?  Nenhuma  coisa  tem  êxito,  se  nela  não
está presente a petulância. Apenas o excesso de força é prova de força.


 A  guerra  sempre  foi  a  grande  inteligência  de  todos  os  espíritos
que se voltaram muito para dentro, que se tornaram profundos demais;
até  no  ferimento  se  acha  o  poder  curativo.  Há  algum  tempo,  minha
divisa é uma máxima cuja procedência eu subtraio à curiosidade erudita:

increscunt animi, virescit volnere virtus.3
[crescem os espíritos, o valor viceja com a ferida]


I máximas e flexas

1 A ociosidade é a mãe de toda psicologia.8  Como?  A  psicologia  seria — um vício?

4. “Toda verdade é simples.” — Não é isso uma dupla mentira?

6. É em sua natureza selvagem que o indivíduo se refaz melhor de sua desnatureza, de sua espiritualidade...

8. Da escola de guerra da vida. — O que não me mata me fortalece.

9. Ajude  a  si  mesmo:  então,  todo  mundo  lhe  ajudará.  Princípio  do amor ao próximo.

10. Não  cometamos  covardia  em  relação  a  nossos  atos!  Não  os abandonemos depois de fazê-los! — É indecente o remorso.

12. Tendo seu por quê? da vida, o indivíduo tolera quase todo como?  —
O ser humano não aspira à felicidade; somente o inglês faz isso.11

13. O  homem  criou  a  mulher  —  mas  de  quê?  De  uma  costela  de  seu Deus — de seu ideal”...

15. Homens póstumos - eu, por exemplo - são menos compreendidosdo  que  os  temporâneos,13  mas  mais  ouvidos.  Mais  precisamente:  não somos jamais compreendidos - daí nossa autoridade...

18.Quem não sabe pôr sua vontade nas coisas lhes põe ao menos um
sentido: isto é, acredita que nelas já se encontra uma vontade (princípio da “fé”).

24. Buscando  pelas  origens,  o  indivíduo  torna-se  caranguejo.  O
historiador olha para trás; por fim, ele também acredita para trás.

25.A  satisfação  consigo  protege  até  mesmo  do  resfriado.  Alguma  vez
uma mulher que se sabia bem-vestida se resfriou? — Estou supondo que
estivesse pouco vestida.

 26. Desconfio  de  todos  os  sistematizadores  e  os  evito.  A  vontade  de sistema é uma falta de retidão.

27. A mulher é considerada profunda — por quê? porque nela jamais se
chega ao fundo. A mulher não é sequer superficial.

28.Se  a  mulher  tem  virtudes  masculinas,  há  que  fugir  dela;  se  não  tem
virtudes masculinas, ela mesma foge.

30. Raramente  se  comete  uma  precipitação  apenas.  Com  a  primeira
sempre  se  faz  demais.  Justamente  por  isso  se  comete  uma  segunda,  em
geral — e então se faz de menos...

 31.O  verme  se  encolhe  ao  ser  pisado.  Com  isso  mostra  inteligência.
Diminui  a  probabilidade  de  ser  novamente  pisado.  Na  linguagem  da moral: humildade. —

32.Há  um  ódio  à  mentira  e  à  dissimulação  que  vem  de  uma  sensível
noção  de  honra;  há  um  ódio  igual  que  vem  da  covardia,  sendo  a
mentira  proibida  por  um  mandamento  divino.  Covarde  demais  para mentir...

33. Quão pouco é necessário para a felicidade! O som de uma gaita-de-
foles. — Sem a música a vida seria um erro. O alemão imagina até Deus cantando canções.18

34 On ne peut penser et écrire qu’assis  [Não  se  pode  pensar  e  escrever
senão  sentado]  (G.  Flaubert).  —  Com  isso  te  pego,  niilista!  A  vida
sedentária19  é  justamente  o  pecado  contra  o  santo  espírito.  Apenas  os
pensamentos andados têm valor.

 35. Há  casos  em  que  nós,  psicólogos,  somos  como  cavalos,  e  ficamos
inquietos: vemos nossa própria sombra oscilar para cima e para baixo à
nossa frente. O psicólogo tem de afastar a vista de si para enxergar.

38. Você é genuíno? ou apenas um ator? Um representante? ou  o  que  é  representado?  —  Enfim,  não  passa  da  imitação  de  um ator... Segunda questão de consciência.

40.

Você  é  alguém  que  olha?  Ou  que  põe  mãos  à  obra?  —  ou  que
desvia o olhar, põe-se de lado?... Terceira questão de consciência.

41.

Você quer ir junto? Ou ir à frente? Ou ir por si?... É preciso saber  o
que se quer e que se quer. Quarta questão de consciência.

44.

A  fórmula  de  minha  felicidade:  um  sim,  um  não,  uma  linha  reta, uma meta...


II O PROBLEMA DE SÓCRATES

1 Em  todos  os  tempos,  os  homens  mais  sábios  fizeram  o  mesmo
julgamento da vida: ela não vale nada... Sempre, em toda parte, ouviu-se
de sua boca o mesmo tom — um tom cheio de dúvida, de melancolia,
de cansaço da vida, de resistência à vida. Até mesmo Sócrates falou, ao
morrer:  “Viver  —  significa  há  muito  estar  doente:  devo  um  galo  a Asclépio,  o  salvador”

2  Juízos, juízos de valor acerca da vida, contra ou a favor,
nunca  podem  ser  verdadeiros,  afinal;  eles  têm  valor  apenas  como
sintomas,  são  considerados  apenas  enquanto  sintomas  —  em  si,  tais juízos  são  bobagens.

7.

— É a ironia de Sócrates uma expressão de revolta? de ressentimento
plebeu?  Goza  ele,  como  oprimido,  de  sua  própria  ferocidade  nas
estocadas  do  silogismo?  Vinga-se  ele  dos  homens  nobres  a  quem
fascina? — Como dialético, tem-se um instrumento implacável nas mãos;
pode-se fazer papel de tirano com ele; expõe-se o outro ao vencê-lo. O
dialético deixa ao adversário a tarefa de provar que não é um idiota: ele
torna  furioso,  torna  ao  mesmo  tempo  desamparado.  O  dialético  tira  a
potência30  do  intelecto  do  adversário.  —  Como?  A  dialética  é  apenas
uma forma de vingança em Sócrates?

10.

Quando  há  necessidade  de  fazer  da  razão  um  tirano,  como  fez
Sócrates, não deve ser pequeno o perigo de que uma outra coisa se faça
de  tirano.  A  racionalidade  foi  então  percebida  como  salvadora,  nem
Sócrates nem  seus  “doentes”  estavam livres  para  serem  ou  não racionais
— isso era de rigueur  [obrigatório],  era  seu  último  recurso.  O  fanatismo
com  que  toda  a  reflexão  grega  se  lança  à  racionalidade  mostra  uma
situação  de  emergência:  estavam  em  perigo,  tinham  uma  única  escolha:
sucumbir ou — ser absurdamente racionais... O moralismo dos filósofos
gregos a partir de Platão é determinado patologicamente; assim também a
sua  estima  da  dialética.  Razão  =  virtude  =  felicidade  significa  tão-só:  é
preciso  imitar  Sócrates  e  instaurar  permanentemente,  contra  os  desejos
obscuros,  uma  luz  diurna  —  a  luz  diurna  da  razão.  É  preciso  ser
prudente, claro, límpido a qualquer preço: toda concessão aos instintos,
ao inconsciente, leva para baixo...



III
A “RAZÃO” NA FILOSOFIA

6.

Serei alvo de gratidão, se resumir uma visão tão nova e tão essencial
em  quatro  teses:  assim  facilito  a  compreensão,  e  também  desafio  a
contestação.Primeira tese.  As  razões  que  fizeram  “este”  mundo  ser  designado
como aparente justificam, isto sim, a sua realidade — uma outra  espécie
de realidade é absolutamente indemonstrável.
Segunda tese.  As  características  dadas  ao  “verdadeiro  ser”  das  coisas
são  as  características  do  não-ser,  do  nada  —  construiu-se  o  “mundo
verdadeiro” a partir da contradição ao mundo real: um mundo aparente,
de fato, na medida em que é apenas uma ilusão ótico-moral.
Terceira  tese.  Não  há  sentido  em  fabular  acerca  de  um  “outro”
mundo,  a  menos  que  um  instinto  de  calúnia,  apequenamento  e
suspeição  da  vida  seja  poderoso  em  nós:  nesse  caso,  vingamo-nos  da
vida com a fantasmagoria de uma vida “outra”, “melhor”.
Quarta tese. Dividir  o  mundo  em  um  “verdadeiro”  e  um  “aparente”,
seja  à  maneira  do  cristianismo,  seja  à  maneira  de  Kant  (um  cristão
insidioso, afinal de contas), é apenas uma sugestão da décadence —  um
sintoma  da  vida  que declina...  O  fato  de  o  artista  estimar  a  aparência
mais  que  a  realidade  não  é  objeção  a  essa  tese.  Pois  “a  aparência”
significa, nesse caso, novamente a realidade, mas numa seleção, correção,
reforço... O artista trágico não é um pessimista — ele diz justamente  Sim
a tudo questionável e mesmo terrível, ele é dionisíaco...


IV
COMO O “MUNDO
VERDADEIRO” SE TORNOU FINALMENTE FÁBULA

1.

O mundo  verdadeiro,  alcançável  para o  sábio,  o  devoto,  o virtuoso
— ele vive nele, ele é ele.
(A  mais  velha  forma  da  idéia,  relativamente  sagaz,  simples,
convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)


6.

Abolimos  o  mundo  verdadeiro:  que  mundo  restou?  o  aparente,
talvez?...  Não!  Com  o  mundo  verdadeiro  abolimos  também  o  mundo
aparente!
(Meio-dia;  momento  da  sombra  mais  breve;  fim  do  longo  erro;
apogeu da humanidade;  incipit zaratustra  [começa Zaratustra].)38

V
MORAL COMO
ANTINATUREZA


1.

Todas  as  paixões  têm  um  período  em  que  são  meramente  funestas,
em que levam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez — e um
período  posterior,  bem  posterior,  em  que  se  casam  com  o  espírito,  se
“espiritualizam”.  Antes,  devido  à  estupidez  na  paixão,  fazia-se  guerra  à
paixão  mesma:  conspirava-se  para  aniquilá-la  —  todos  os  velhos
monstros  da  moral  são  unânimes  nisso:  “il  faut  tuer  les  passions”  [é
preciso matar as paixões]. (...)

 A  Igreja  primitiva  lutou,  como  se  sabe,  contra  os
“inteligentes”,  em  favor  dos  “pobres  de  espírito”:  como  se  poderia  dela
esperar  uma  guerra  inteligente  contra  a  paixão?  —  A  Igreja  combate  a
paixão  com  a  extirpação  em  todo  sentido:  sua  prática,  sua  “cura”  é  o
castracionismo.  Ela  jamais  pergunta:  “Como  espiritualizar,  embelezar,
divinizar  um  desejo?”  —  em  todas  as  épocas,  ao  disciplinar,  ela  pôs  a
ênfase  na  erradicação  (da  sensualidade,  do  orgulho,  da  avidez  de
domínio,  da  cupidez,  da  ânsia  de  vingança).  —  Mas  atacar  as  paixões
pela  raiz  significa  atacar  a  vida  pela  raiz:  a  prática  da  Igreja  é  hostil  à
vida...



2.

O  mesmo  recurso,  a  mutilação,  a  erradicação,  é  instintivamente
escolhido,  na  luta  contra  um  desejo,  por  aqueles  que  são  muito  fracos
de  vontade,  muito  degenerados  para  poder  impor-se  moderação  nele:
por aquelas naturezas que têm necessidade de La Trappe,40 falando  por
metáfora  (e  sem  metáfora  —),  de  alguma  definitiva  declaração  dehostilidade,  de  um  abismo  entre  si  mesmas  e  uma  paixão.  Os  meios
radicais são indispensáveis somente para os degenerados; a fraqueza da
vontade  ou,  mais  exatamente,  a  incapacidade  de  não  reagir  a  um
estímulo,  é  ela  mesma  apenas  outra  forma  de  degenerescência.  A
hostilidade radical, a inimizade mortal à sensualidade é um sintoma que
faz  pensar:  justifica  especulações  sobre  o  estado  geral  de  alguém  tão
excessivo.  —  Aliás,  essa  hostilidade,  esse  ódio  atinge  seu  auge  apenas
quando  tais  naturezas  já  não  têm  firmeza  bastante  sequer  para  a  cura
radical, para a renúncia ao seu “diabo”. Observe-se a história inteira dos
sacerdotes e filósofos, incluindo os artistas: as coisas mais venenosas para
os  sentidos  não  foram  ditas  pelos  impotentes,  tampouco  pelos  ascetas,
mas  pelos  ascetas  impossíveis,  por  aqueles  que  teriam  tido  necessidade
de ser ascetas...

3.

A  espiritualização  da  sensualidade  chama-se  amor:  ela  é  um  grande
triunfo sobre o cristianismo. Um outro triunfo é nossa espiritualização da
inimizade. Consiste em compreender profundamente o valor de possuir
inimigos:  numa  palavra,  em  agir  e  concluir  de  modo  inverso  àquele
como  antes  se  agia  e  se  concluía.  Em  todos  os  tempos  a  Igreja  quis  a
destruição  de  seus  inimigos:  nós,  imoralistas  e  anticristos,  vemos  como
vantagem  nossa  o  fato  de  a  Igreja  subsistir...  Também  na  política  a
inimizade se tornou agora mais espiritual — muito mais sagaz, pensativa,
moderada.  Quase  todo  partido  vê  que  está  no  interesse  de  sua
autoconservação que o partido oposto não esgote a força; o mesmo vale
para a grande política. Sobretudo uma nova criação, o novo Reich,  por
exemplo,  tem  mais  necessidade  de  inimigos  que  de  amigos:  apenas  no
antagonismo ele se sente necessário, apenas no antagonismo ele se  torna
necessário...  Não  agimos  de  modo  diferente  em  relação  ao  inimigo
“interior”:  também  aí  espiritualizamos  a  inimizade,  também  aí
compreendemos  o  seu  valor.  Somos  fecundos  apenas  ao  preço  de
sermos  ricos  em  antagonismos;  permanecemos  jovens  apenas  sob  a
condição de que a alma não relaxe, não busque a paz... Nada se tornou
mais estranho a nós do que aquele desiderato de antigamente, o da “paz
de espírito”, o desiderato cristão; nada nos causa menos inveja do que a
vaca moral e a gorda satisfação da boa consciência. Renunciamos à vida
grande,  ao  renunciar  à  guerra...  Em  muitos  casos,  é  certo,  a  “paz  de
espírito”  é  apenas  um  mal-entendido  —  outra  coisa,  que  não  sabe
denominar-se  mais  honestamente.  Eis  alguns  casos,  sem  rodeios  e  sem
preconceito. “Paz de espírito” pode ser, por exemplo, a suave emanação
de  uma  rica  animalidade  para  o  âmbito  moral  (ou  religioso).  Ou  o
começo da fadiga, a primeira sombra que a noite, que toda espécie de
noite  lança.  Ou  um  sinal  de  que  o  ar  está  úmido,  de  que  ventos
meridionais se aproximam. Ou a gratidão, sem o saber, por uma digestãobem-sucedida (às vezes chamada de “amor aos homens”). Ou o acalmar-
se  do  convalescente  para  quem  tudo  tem  novo  sabor  e  que  aguarda...
Ou  o  estado  que  sucede  a  uma  forte  satisfação  da  paixão  que  nos
domina, o bem-estar de uma rara saciedade. Ou a caducidade de nossa
vontade,  de  nossos  desejos,  de  nossos  vícios.  Ou  a  preguiça,  que  a
vaidade  convence  a  adornar-se  moralmente.  Ou  a  chegada  de  uma
certeza,  até  de  uma  certeza  terrível,  após  uma  prolongada  tensão  e
tortura pela incerteza. Ou a expressão de maturidade e maestria em meio
ao agir, criar, fazer, querer, o tranqüilo respirar, a atingida “liberdade da
vontade”... Crepúsculo dos ídolos: quem sabe? Talvez também apenas uma
“paz de espírito”...


4.

Darei  formulação  a  um  princípio.  Todo  naturalismo  na  moral,  ou
seja,  toda  moral  sadia,  é  dominado  por  um  instinto  da  vida  —  algum
mandamento da vida é preenchido por determinado cânon de “deves” e
“não  deves”,  algum  impedimento  e  hostilidade  no  caminho  da  vida  é
assim afastado. A moral antinatural,  ou  seja,  quase  toda  moral  até  hoje
ensinada, venerada e pregada, volta-se, pelo contrário, justamente  contra
os  instintos  da  vida  —  é  uma  condenação,  ora  secreta,  ora  ruidosa  e
insolente, desses instintos. Quando diz que “Deus vê nos corações”,41  ela
diz  Não  aos  mais  baixos  e  mais  elevados  desejos  da  vida,  e  toma  Deus
como inimigo da vida... O santo no qual Deus se compraz é o castrado
ideal... A vida acaba onde o “Reino de Deus” começa...


Dado que se tenha compreendido o caráter hediondo dessa revolta
contra  a  vida,  que  se  tornou  quase  sacrossanta  na  moral  cristã,
compreendeu-se  também,  felizmente,  uma  outra  coisa:  o  que  há  de
inútil,  aparente,  absurdo,  mentiroso  numa  tal  revolta.  Uma  condenação
da  vida  por  parte  do  vivente  é,  afinal,  apenas  o  sintoma  de  uma
determinada espécie de vida: se tal condenação é justificada ou não, eis
uma  questão  que  não  chega  a  ser  levantada.  Seria  preciso  estar  numa
posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la como alguém, como
muitos,  como  todos  os  que  a  viveram,  para  poder  sequer  tocar  no
problema do valor da vida: razões bastantes para compreender que este
é, para nós, um problema inacessível. Ao falar de valores, falamos sob a
inspiração,  sob  a  ótica  da  vida:  a  vida  mesma  nos  força  a  estabelecer
valores,  ela  mesma  valora  através  de  nós,  ao  estabelecermos  valores...
Disto  se  segue  que  também  essa  antinatureza  de  moral,  que  concebe
Deus como antítese e condenação da vida, é apenas um juízo de valor
da  vida  —  de  qual  vida?  de  qual  espécie  de  vida?  —  Já  dei  a  resposta:
da  vida  declinante,  enfraquecida,  cansada,  condenada.  A  moral,  tal
como  foi  até  hoje  entendida  —  tal  como  formulada  também  por
Schopenhauer  enfim,  como  “negação  da  vontade  de  vida”  —,  é  o
instinto de décadence  mesmo,  que  se  converte  em  imperativo:  ela  diz:
“pereça!” — ela é o juízo dos condenados...


6.

Consideremos ainda, por fim, que ingenuidade é dizer “assim e assim
deveria ser  o  homem!”.  A  realidade  nos  mostra  uma  fascinante  riqueza
de  tipos,  a  opulência  de  um  pródigo  jogo  e  alternância  de  formas:  e
algum  pobre  e  vadio  moralista  vem  e  diz:  “Não!  o  ser  humano  deveria
ser  outro!”...  Ele  sabe  até  como  este  deveria  ser,  esse  mandrião  e
santarrão;42  ele  desenha  a  si  próprio  no  muro  e  diz  “ecce  homo!”...43
Mas, mesmo quando o moralista se volta apenas para o indivíduo e lhe
diz: “você deveria ser assim e assim!”, ele não deixa de se tornar ridículo.
O  indivíduo  é,  de  cima  a  baixo,  uma  parcela  de  fatum  [fado,  destino],
uma lei mais, uma necessidade mais para tudo o que virá e será. Dizer-
lhe “mude!” significa exigir que tudo mude, até mesmo o que ficou para
trás...  E,  de  fato,  houve  moralistas  conseqüentes,  que  queriam  o  ser
humano de outra forma, isto é, virtuoso, queriam-no à sua imagem, isto
é,  santarrão:  para  isso  negaram  eles  o  mundo!  Tolice  nada  pequena!
Imodéstia nada modesta!... A moral, na medida em que condena  em  si,
não por atenções, considerações, intenções da vida, é um erro específico
do qual não se deve ter compaixão, uma idiossincrasia de degenerados
que  causou  dano  incomensurável!...  Nós,  imoralistas,  pelo  contrário,
abrimos  nosso  coração  a  toda  espécie  de  entendimento,  compreensão,
abonação.  Nós  não  negamos  facilmente,  buscamos  nossa  distinção  em
sermos  afirmadores.  Cada  vez  mais  nossos  olhos  atentaram  para  essa
economia  que  necessita  e  sabe  aproveitar  tudo  o  que  é  rejeitado  pelo
santo  desatino  do  sacerdote,  a  doente  razão  do  sacerdote,  para  essa
economia  que  há  na  lei  da  vida,  que  mesmo  das  repugnantes  espécies
do  santarrão,  do  sacerdote,  do  virtuoso  tira  sua  vantagem  —  qual
vantagem? — Mas nós mesmos, imoralistas, somos aqui a resposta...



VI
-OS QUATRO GRANDES ERROS


6.

Todo o âmbito da moral e da religião se inscreve nesse conceito das
causas  imaginárias.  —  “Explicação”  dos  sentimentos  gerais
desagradáveis.  Estes  são  determinados  por  seres  que  nos  são  hostis
(espíritos  maus:  caso  mais  famoso  —  a  má  compreensão  das  histéricas
como  sendo  bruxas).  São  determinados  por  ações  que  não  podem  ser
aprovadas (o sentimento do “pecado”, da “pecaminosidade”, introduzido
num mal-estar fisiológico — sempre se acha razões para estar insatisfeitoconsigo).  São  determinados  como  castigo,  como  pagamento  por  algo
que não devíamos ter feito, que não devíamos ter sido (generalizado por
Schopenhauer, de forma impudente, numa tese em que a moral aparece
como  o  que  é,  como  verdadeira  envenenadora  e  caluniadora  da  vida:
“Toda grande  dor,  seja  física, seja  espiritual,  exprime  o  que merecemos;
pois não poderia nos sobrevir se não a merecêssemos”,  O mundo como
vontade  e  representação,  ii ,  666).47  São  determinados  como
conseqüências de  atos  irrefletidos  que têm  desfecho  ruim  (—  os afetos,
os  sentidos  colocados  como  causa,  como  “culpáveis”;  crises  fisiológicas
interpretadas,  com  ajuda  de  outras  crises,  como  “merecidas”).  —
“Explicação”  dos  sentimentos  gerais  agradáveis.  Estes  são  determinados
pela  confiança  em  Deus.  São  determinados  pela  consciência  das  boas
ações (a chamada “boa consciência”, um estado fisiológico que às vezes
semelha  uma  boa  digestão  a  ponto  de  ser  com  ela  confundido).  São
determinados  pelo  desenlace  feliz  de  um  empreendimento  (—  ingênua
falácia:  o  desenlace  feliz  de  uma  empresa  não  cria  sentimentos  gerais
agradáveis  num  hipocondríaco  ou  num  Pascal).  São  determinados  por
fé,  amor,  esperança  —  as  virtudes  cristãs.48  —  Na  verdade,  todas  essas
supostas explicações são estados resultantes e, por assim dizer, traduções
de sentimentos de prazer ou desprazer em um falso dialeto: pode-se ter
esperança porque  o  sentimento  fisiológico  básico  está  novamente  rico  e
forte;  confia-se  em  Deus  porque  o  sentimento  de  força  e  plenitude  dá
tranqüilidade.  —  A  moral  e  a  religião  inscrevem-se  inteiramente  na
psicologia do erro:  em  cada  caso  são  confundidos  efeito  e  causa;  ou  a
verdade  é  confundida  com  o  efeito  do  que  se  acredita  como
verdadeiro;  ou  um  estado  da  consciência,  com  a  causalidade  desse
estado.


7.

Erro  do  livre-arbítrio.  —  Hoje  não  temos  mais  compaixão  pelo
conceito  de  “livre-arbítrio”:  sabemos  bem  demais  o  que  é  —  o  mais
famigerado  artifício  de  teólogos  que  há,  com  o  objetivo  de  fazer  a
humanidade  “responsável”  no  sentido  deles,  isto  é,  de  torná-la  deles
dependente...  Apenas  ofereço,  aqui,  a  psicologia  de  todo  “tornar
responsável”.  —  Onde  quer  que  responsabilidades  sejam  buscadas,
costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é
despojado  de  sua  inocência,  quando  se  faz  remontar  esse  ou  aquele
modo  de  ser  à  vontade,  a  intenções,  a  atos  de  responsabilidade:  a
doutrina  da  vontade  foi  essencialmente  inventada  com  o  objetivo  da
punição,  isto  é,  de  querer  achar  culpado.  Toda  a  velha  psicologia,  a
psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores,
os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o
direito de impor castigos — ou criar para Deus esse direito... Os homens
foram  considerados  “livres”  para  poderem  ser  julgados,  ser  punidos  —ser culpados: em conseqüência, toda ação teve de ser considerada como
querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (— assim, a
mais fundamental  falsificação  de  moeda  in psychologicis  [em  questões
psicológicas]  transformou-se  em  princípio  da  psicologia  mesma...).  Hoje,
quando  encetamos  o  movimento  inverso,  quando  nós,  imoralistas,
buscamos  com  toda  a  energia  retirar  novamente  do  mundo  o  conceito
de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história,
a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos,
adversários  mais  radicais  do  que  os  teólogos,  que,  mediante  o  conceito
de  “ordem  moral  do  mundo”,  continuam  a  empestear  a  inocência  do
vir-a-ser  com  “culpa”  e  “castigo”.  O  cristianismo  é  uma  metafísica  do
carrasco...


8.

Qual pode ser a nossa doutrina? — Que ninguém dá ao ser humano
suas  características,  nem  Deus,  nem  a  sociedade,  nem  seus  pais  e
ancestrais, nem ele próprio (—  o  contra-senso  dessa  última  idéia  rejeitada
foi  ensinado,  como  “liberdade  inteligível”,  por  Kant,  e  talvez  já  por
Platão).49 Ninguém  é  responsável  pelo  fato  de  existir,  por  ser  assim  ou
assado,  por  se  achar  nessas  circunstâncias,  nesse  ambiente.  A  fatalidade
do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e
será.  Ele  não  é  conseqüência  de  uma  intenção,  uma  vontade,  uma
finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal
de  ser  humano”  ou  um  “ideal  de  felicidade”  ou  um  “ideal  de
moralidade”  —  é  absurdo  querer  empurrar  o  seu  ser  para  uma
finalidade qualquer.50 Nós é que inventamos o conceito de “finalidade”:
na  realidade  não  se  encontra  finalidade...  Cada  um  é  necessário,  é  um
pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo — não há nada que
possa  julgar,  medir,  comparar,  condenar  nosso  ser,  pois  isto  significaria
julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do
todo!  —  O  fato  de  que  ninguém  mais  é  feito  responsável,  de  que  o
modo  do  ser  não  pode  ser  remontado  a  uma  causa prima,  de  que  o
mundo não é uma unidade nem como sensorium nem  como  “espírito”,
apenas  isto  é  a  grande  libertação  —  somente  com  isso  é  novamente
estabelecida  a  inocência  do  vir-a-ser...  O  conceito  de  “Deus”  foi,  até
agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a
responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo. —


VII
OS “MELHORADORES”
DA HUMANIDADE

3 Tomemos o outro caso do que chamam moral, o do cultivo de  uma
determinada raça e espécie. O mais formidável exemplo dele é fornecido
pela  moral  indiana,  sancionada  como  religião  na  forma  da  “Lei  de
Manu”.55 Aí se propõe a tarefa de cultivar não menos que quatro raças
de vez: uma sacerdotal, uma guerreira, uma de mercadores e agricultores
e,  por  fim,  uma  raça  de  servidores,  os  sudras.  Evidentemente,  aí  já  não
estamos entre domadores de animais: uma espécie de homem cem vezes
mais  branda  e  mais  razoável  é  o  pressuposto  para  simplesmente
conceber  o  plano  de  tal  cultivo.  Respira-se  aliviado,  quando  se  deixa  o
ar cristão de doença e masmorra e se adentra esse mundo mais são, mais
elevado, mais amplo.  Quão  miserável  é  o  Novo  Testamento  ao  lado  de
Manu,  como  cheira  mal!  —  Mas  também  essa  organização  tinha
necessidade  de  ser  terrível  —  dessa  vez  não  em  luta  com  a  besta,  mas
com  a  noção  oposta  a  essa,  o  homem  do  não-cultivo,  o  homem-
mixórdia, o chandala. E novamente não teve outro recurso para torná-lo
inofensivo, fraco, a não ser torná-lo doente — era a luta com o “grande
número”.  Talvez  nada  contrarie  mais  nossa  sensibilidade  do  que  essas
medidas  de  proteção  da  moral  indiana.  O  terceiro  edito,  por  exemplo
(Avadana-Sastra  i ),  o  “dos  vegetais  impuros”,  decreta  que  a  única
alimentação  permitida  aos  chandalas  seja  alho  e  cebola,  visto  que  as
escrituras  sagradas  proíbem  dar-lhes  cereais  ou  frutos  que  contenham
grãos,  ou  água,  ou  fogo.  O  mesmo  edito  estabelece  que  a  água  que
necessitam não pode ser retirada dos rios, nem das fontes ou dos lagos,
mas  somente  das  vias  de  acesso  aos  pântanos  e  dos  buracos  deixados
pelos  pés  dos  animais.  Igualmente  lhes  é  proibido  lavar  sua  roupa  e
lavar a si mesmos, pois a água que lhes é concedida graciosamente pode
ser  usada  apenas  para  matar  a  sede.  Por  fim,  há  a  proibição  de  as
mulheres sudras assistirem as mulheres chandalas no parto, e também de
essas últimas assistirem uma a outra... — O resultado de tal policiamento
sanitário não deixou de aparecer: epidemias assassinas, horríveis doenças
venéreas  e,  depois,  novamente  a  “lei  da  faca”,  prescrevendo  a
circuncisão dos meninos e a remoção dos pequenos lábios das meninas.— O próprio Manu diz: “Os chandalas são fruto do adultério, do incesto
e do crime (— esta é a conseqüência necessária do conceito de cultivo).
Eles  só  devem  ter  por  vestimenta  os  farrapos  dos  cadáveres;  por  louça,
vasilhames quebrados; por adornos, pedaços velhos de ferro; por culto
religioso,  somente  os  maus  espíritos.  Eles  devem  errar  entre  um  lugar  e
outro sem descanso. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita
e servir-se da mão direita para escrever: o uso da mão direita e da escrita
da esquerda para a direita é reservado aos virtuosos, às pessoas de  raça”


4.

Essas  disposições  são  muito  instrutivas:  nelas  temos  a  humanidade
ariana, totalmente pura, totalmente primordial — vemos que o conceito
de  “sangue  puro”  é  o  oposto  de  um  conceito  inócuo.  Por  outro  lado,
torna-se claro em qual povo  se  eternizou  o  ódio,  o  ódio  de  chandala  a
essa “humanidade”, onde ele se tornou religião, onde se tornou  gênio...
Desse  ponto  de  vista  os  evangelhos  são  um  documento  de  primeira
ordem;  e  mais  ainda  o  livro  de  Enoque.  —  O  cristianismo,  de  raiz
judaica  e  compreensível  apenas  como  produto  deste  solo,  representa  o
movimento oposto a toda moral do cultivo, da raça, do privilégio: — é a
religião  antiariana  par  excellence  [por  excelência]:  o  cristianismo,56  a
tresvaloração  de  todos  os  valores  arianos,  o  triunfo  dos  valores
chandalas,  o  evangelho  pregado  aos  pobres,  aos  baixos,  a  revolta  geral
de todos os pisoteados, miseráveis, malogrados e desfavorecidos contra a
“raça” — a imorredoura vingança chandala como religião do amor...

5 A  moral  do  cultivo  e  a  moral  da  domesticação  são  inteiramente
dignas uma da outra nos meios de se imporem: podemos colocar como
princípio  máximo  que,  para  fazer  moral,  é  preciso  ter  a  vontade
incondicional do oposto. Este é o grande, o  inquietante  problema  que
persegui  mais  longamente:  a  psicologia  dos  “melhoradores”  da
humanidade.  Um  fato  pequeno  e,  no  fundo,  modesto,  o  da  chamada
pia  fraus  [mentira  piedosa],57  permitiu-me  o  primeiro  acesso  a  este
problema: a pia fraus, a herança de todos os filósofos e sacerdotes que
“melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio,58
nem  os  mestres  judeus  e  cristãos  duvidaram  jamais  de  seu  direito  à
mentira.  Não  duvidaram  de  outros  direitos...  Expresso  numa  fórmula,
pode-se dizer: todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a
humanidade foram fundamentalmente imorais.

VIII
O QUE FALTA AOS ALEMÃES


1 Entre  os  alemães  não  basta  ter  espírito  nos  dias  de  hoje:  é  preciso
tomá-lo, arrogar-se espírito...
Talvez  eu  conheça  os  alemães,  talvez  possa  até  dizer-lhes  algumas
verdades.  A  nova  Alemanha  representa  um  enorme  quantum  de
capacidades herdadas e adquiridas, de modo que por algum tempo ela
pode  gastar  prodigamente  o  tesouro  acumulado  de  energias.  Não  foi
uma cultura elevada que com ela ganhou ascendência, menos ainda um
gosto delicado, uma nobre “beleza” dos instintos; mas virtudes mais viris
do  que  as  que  qualquer  outro  país  da  Europa  é  capaz  de  mostrar.
Muito  ânimo  e  respeito  de  si  própria,  muita  segurança  no  trato,  na
reciprocidade dos deveres, muita laboriosidade, muita perseverança — e
uma  moderação  herdada,  que  carece  antes  de  aguilhão  que  de  freios.
Acrescento que aqui ainda se obedece, sem que a obediência humilhe...
E ninguém despreza seu adversário...
Vê-se que quero ser justo com os alemães: nisso não gostaria de ser
infiel a mim mesmo — também devo, portanto, colocar minha objeção a
eles. Paga-se caro por chegar ao poder: o poder imbeciliza... Os alemães
—  já  foram  chamados  de  povo  de  pensadores:  ainda  pensam
atualmente?  —  Os  alemães  agora  se  entediam  com  o  espírito,  eles  agora
desconfiam  do  espírito,  a  política  devora  toda  seriedade  perante  coisas
realmente espirituais. “Alemanha, Alemanha acima de tudo”59 — este foi,
receio,  o  fim  da  filosofia  alemã...  “Existem  filósofos  alemães?  Existem
poetas alemães? Existem bons livros  alemães?”,  perguntam-me  na  Europa.
Eu  enrubesço,  mas,  com  a  valentia  que  me  é  própria  mesmo  em  casos
desesperados,  respondo:  “Sim,  Bismarck!”.60  —  Deveria  eu  também
confessar  que  livros  são  lidos  atualmente?...  Maldito  instinto  de
mediocridade! —


2.

—  O  que  o  espírito  alemão  poderia  ser,  quem  já  não  teve  seus
pensamentos melancólicos a respeito disso? Mas esse povo se imbeciliza
voluntariamente  há  quase  mil  anos:  em  nenhum  outro  lugar  se  abusou
tão  viciosamente  dos  dois  grandes  narcóticos  europeus,  o  álcool  e  o
cristianismo.  Ultimamente  se  juntou  a  eles  um  terceiro,  que  sozinho
bastaria  para  liquidar  toda  sutil  e  audaz  agilidade  do  espírito,  a  música,nossa  constipada  e  constipadora  música  alemã.  —  Quanta  enfadonha
gravidade,  paralisia,  umidade,  robe  de  dormir,61  quanta  cerveja  há  na
inteligência alemã! Como é possível que homens jovens, que devotam a
existência  aos  objetivos  mais  espirituais,  não  percebam  dentro  de  si  o
primeiro  instinto  da  espiritualidade,  o  instinto  de  autoconservação  do
espírito — e bebam cerveja?... O alcoolismo da juventude instruída talvez
não chegue a pôr em dúvida sua instrução — pode-se até ser um grande
erudito,  sem  ter  espírito  —,  mas  em  qualquer  outro  aspecto  será  um
problema. — Onde não seria ela encontrada, a suave degeneração que a
cerveja  produz  no  espírito?  Certa  vez,  num  caso  que  quase  se  tornou
célebre,  eu  pus  o  dedo  numa  tal  degeneração  —  a  de  nosso  primeiro
livre-pensador  alemão,  o  inteligente  David  Strauss,  em  autor  de  um
evangelho  de  cervejaria  e  de  uma  “nova  fé”...  Não  foi  em  vão  que  ele
fez  suas  juras  à  “graciosa  morena”  em  versos  —  fidelidade  até  a
morte...62

4
Faça-se  um  breve  cálculo:  não  é  somente  palpável  que  a  cultura
alemã  declina,  também  não  falta  razão  suficiente67  para  isso.  Ninguém,
afinal,  pode  despender  mais  do  que  aquilo  que  tem  —  isso  vale  para
indivíduos, isso vale para povos. Se a pessoa se dedica a poder, grande
política,  economia,  comércio  mundial,  parlamentarismo,  interesses
militares  —  se  despende  para  esse  lado  o  quantum  de  entendimento,
seriedade,  vontade,  auto-superação  que  é,  então  ele  faltará  no  outro
lado.  A  cultura  e  o  Estado  —  não  haja  engano  a  respeito  disso  —  são
antagonistas: “Estado cultural” é apenas uma idéia moderna. Um vive do
outro,  um  prospera  à  custa  do  outro.  Todas  as  grandes  épocas  da
cultura  são  tempos  de  declínio  político:  o  que  é  grande  no  sentido
cultural é apolítico, mesmo antipolítico. — O coração de Goethe abriu-se
ante  o  fenômeno  Napoleão  —  e  fechou-se  ante  as  “Guerras  de
Libertação”...68  No  mesmo  instante  em  que  a  Alemanha  se  alça  como
grande potência, a França adquire renovada importância como  potência
cultural. Já agora, muita seriedade nova, muita  paixão  nova  do  espírito
migrou  para  Paris;  a  questão  do  pessimismo,  por  exemplo,  a  questão
Wagner,  quase  todas  as  questões  psicológicas  e  artísticas  são  lá
examinadas  de  modo  incomparavelmente  mais  sutil  e  cabal  do  que  na
Alemanha  —  os  alemães  são  mesmo  incapazes  dessa  espécie  de
seriedade.  —  Na  história  da  cultura  européia,  a  ascensão  do  Reich
significa  sobretudo  uma  coisa:  uma  mudança  do  centro  de  gravidade.
Em toda parte se sabe: no principal — que continua sendo a cultura —
os alemães já não são considerados. As pessoas perguntam: vocês têm ao
menos um espírito  que  conte  para  a  Europa?  Como  o  seu  Goethe,  seu
Hegel, seu Heinrich Heine, seu Schopenhauer contava? — Não cessa de
causar espanto que não haja mais um único filósofo alemão.

5 O inteiro sistema de educação superior da Alemanha perdeu o mais
importante:  o  fim,  assim  como  os  meios  para  o  fim.  Esqueceu-se  que
educação, formação é o fim — e não “o Reich” —, que para esse fim é
necessário  o  educador  —  e  não  professores  de  ginásio  e  eruditos
universitários...  Precisa-se  de  educadores  que  sejam  eles  próprios
educados,  espíritos  superiores,  nobres,  provados  a  cada  momento,
provados  pela  palavra  e  pelo  silêncio,  de  culturas  maduras,  tornadas
doces  —  não  os  doutos  grosseirões  que  ginásio  e  universidade  hoje
oferecem  aos  jovens  como“amas-de-leite  superiores”.  Faltam  os
educadores,  fora  as  mais  raras  exceções,  a  primeira  condição  para  a
educação:  daí  o  declínio  da  cultura  alemã.  —  Uma  dessas  raríssimas
exceções  é  meu  venerável  amigo  Jacob  Burckhardt,69  na  Basiléia:
sobretudo a ele a Basiléia deve sua preeminência em humanidade. — Oque as “escolas superiores” da Alemanha realmente alcançam é um brutal
adestramento,  a  fim  de,  com  a  menor  perda  possível  de  tempo,  tornar
útil,  utilizável  para  o  Estado  um  grande  número  de  homens  jovens.
“Educação  superior”  e  grande  número  —  duas  coisas  que  se
contradizem de antemão. Qualquer educação superior pertence apenas à
exceção:  é  preciso  ser  privilegiado  para  ter  direito  a  tão  elevado
privilégio.  Todas  as  coisas  grandes,  todas  as  coisas  belas  não
podemjamais  ser  umbemcomum:  pulchrum  est  paucorum  hominum  [o
belo é para poucos].70 — O que determina o declínio da cultura alemã?
O  fato  de  “educação  superior”  não  mais  ser  prerrogativa  —  o
democratismo  da  “formação”  tornada  “geral”,  vulgar...71  Sem  esquecer
que  privilégios  militares  impõem  formalmente  a  excessiva  freqüentação
das  escolas  superiores,  ou  seja,  sua  decadência.  —  A  ninguém  mais  é
dado,  na  Alemanha  de  hoje,  proporcionar  aos  filhos  uma  educação
nobre:  nossas  escolas  “superiores”  são  todas  direcionadas  para  a  mais
ambígua  mediocridade,  com  seus  professores,  planos  de  ensino,  metas
de  ensino.  E  em  toda  parte  vigora  uma  pressa  indecente,  como  se  algo
fosse perdido se o jovemde 23 anos ainda não estivesse “pronto”, ainda
não  tivesse  resposta  para  a  “pergunta-mor”:  qual  profissão?  —  Um  tipo
superior  de  homem,  permitam-me  dizer,  não  gosta  de  “profissão”,
justamente  porque  sabe  que  tem  “vocação”...72  Ele  tem  tempo,  toma
tempo,  não  pensa  em  ficar  “pronto”  —  aos  trinta  anos  alguém  é,  no
sentido da cultura elevada, um iniciante, uma criança.—São umescândalo
os  nossos  ginásios  abarrotados,  nossos  sobrecarregados,  estupidificados
professores  ginasiais:  para  tomar  a  defesa  dessas  condições,  como
recentemente fizeram os professores de Heidelberg, para isso pode haver
causas —razões não há


6 Agora  apresentarei,  para  não  faltar  com  minha  natureza,  que  é
afirmativa e só indiretamente, só involuntariamente tem algo a ver com
a  contradição  e  a  crítica,  as  três  tarefas  pelas  quais  se  necessita  de
educadores. Deve-se aprender a ver, aprender a pensar, aprender a  falar
e escrever: o objetivo, nos três casos, é uma cultura nobre. — Aprender
a  ver  —  habituar  o  olho  ao  sossego,  à  paciência,  a  deixar  as  coisas  se
aproximarem;  adiar  o  julgamento,  aprender  a  rodear  e  cingir  o  caso
individual  de  todos  os  lados.  Esta  é  a  primeira  preparação  para  a
espiritualidade:  não  reagir  de  imediato  a  um  estímulo,  e  sim  tomar  em
mãos  os  instintos  inibidores,  excludentes.  Aprender  a  ver,  tal  como  o
entendo,  é  aproximadamente  o  que  a  linguagem  não  filosófica  chama
de vontade forte: o essencial aí é não “querer”, ser capaz de  prorrogar  a
decisão.  Toda  não-espiritualidade,  toda  vulgaridade  se  baseia  na
incapacidade  de  resistir  a  um  estímulo  —  tem-se  que  reagir,  segue-se
todo impulso. Em muitos casos, esse “ter que” já é enfermidade, declínio,
sintoma  de  esgotamento  —  quase  tudo  o  que  a  crueza  não  filosófica
designa  como  “vício”  é  apenas  essa  incapacidade  fisiológica  de  não
reagir.  —  Uma  aplicação  prática  do  ter  aprendido  a  ver:  como
“aprendente”  a  pessoa  se  torna  lenta,  desconfiada,  recalcitrante.
Inicialmente  deixa  aproximarem-se  coisas  desconhecidas,  novas  de  todo
tipo, com hostil tranqüilidade — recuará as mãos diante delas. Manter as
portas  todas  abertas,  servilmente  prostrar-se  ante  cada  pequenino  fato,
sempre estar disposto a lançar-se no lugar de, a mergulhar nos  outros  e
em  outras  coisas,  em  suma,  a  célebre  “objetividade”  moderna,  é  mau
gosto, é ignóbil por excelência

IX
INCURSÕES DE UM
EXTEMPORÂNEO

1 Meus  impossíveis.  —  Sêneca:  ou  o  toureador  da  virtude.  —
Rousseau:  ou  o  retorno  à  natureza  in impuris naturalibus.  —  Schiller:
ou o trombeteiro moral de Säckingen. — Dante: ou a hiena que  escreve
poesia nos túmulos. — Kant:  ou  cant  como  caráter  inteligível.  —  Victor
Hugo: ou o farol no mar do absurdo. — Liszt: ou a escola da agilidade
—  com  as  mulheres.  —  George Sand:  ou  lactea ubertas;  em  linguagem
clara: a vaca leiteira com “belo estilo”. — Michelet: ou o entusiasmo que
despe a jaqueta... Carlyle: ou pessimismo como almoço mal digerido. —
John Stuart Mill:  ou  a  clareza  ofensiva.  — Les frères de Goncourt:  ou  os
dois Ajaxes em luta com Homero. Música de Offenbach. — Zola:  ou  “a
alegria de cheirar mal”.


2 Renan. — Teologia, ou a corrupção da razão pelo “pecado original”
(o cristianismo). Testemunha disso é Renan, que, quando arrisca um Sim
ou  um  Não  de  natureza  mais  geral,  erra  o  alvo  com  penosa
regularidade. Ele gostaria, por exemplo, de unir la science [a ciência] e la
noblesse [nobreza]: mas a science é coisa da democracia, isso é algo bem
palpável.  Ele  deseja,  com  ambição  nada  pequena,  representar  um
aristocratismo do espírito: mas, ao mesmo tempo, põe-se de joelhos ante
a  doutrina  oposta,  o  évangile des humbles  [evangelho  dos  humildes],  e
não apenas de joelhos...75 De que serve todo o livre-pensamento, toda a
modernidade, zombaria e volúvel flexibilidade,76 se em suas entranhas o
indivíduo  permanece  cristão,  católico  e  até  sacerdote!  Renan  tem  sua
inventividade na sedução, exatamente como um jesuíta e um confessor;
à  sua  espiritualidade  não  falta  o  amplo  sorriso  de  padre  —  como  todo
sacerdote, ele  se  torna  perigoso apenas quando  ama.  Ninguém  o iguala
nisso, em adorar de uma maneira mortalmente perigosa... Esse espírito de
Renan, um espírito que enfraquece o nervo, é uma fatalidade mais para a
pobre, doente França, doente da vontade

3 Sainte-Beuve. —  Nada  viril  nele;  cheio  de  mesquinha  raiva  a  todos
os  espíritos  viris.  Vagueia  ao  redor,  sutil,  curioso,  entediado,  espreitador
—  no  fundo,  uma  personalidade  de  mulher,  com  feminina  avidez  de
vingança  e  feminina  sensualidade.  Como  psicólogo,  um  gênio  da
médisance  [maledicência];  inesgotavelmente  rico  em  meios  para  isso;
ninguém sabe, como ele, misturar veneno e louvor. Plebeu nos instintos
mais baixos, e aparentado ao ressentiment de Rousseau:  por conseguinte,
romântico — pois debaixo de todo romantisme rosna e anseia o instinto
de  vingança  de  Rousseau.  Revolucionário,  mas  ainda  toleravelmente
refreado  pelo  medo.  Sem  liberdade  perante  tudo  o  que  tem  força
(opinião pública, Academia, corte, até mesmo Port-Royal).77 Irritado com
tudo o que é grande nos homens e nas coisas, com tudo o que acredita
em  si  mesmo.  Poeta  e  meio-mulher  suficiente  para  perceber  o  que  é
grande  como  poder;  sempre  encolhido  como  aquele  famoso  verme,78
pois  continuamente  se  sente  pisado.  Enquanto  crítico,  sem  medida,
firmeza e medula, com a língua do  libertin  [libertino]  cosmopolita  para
muitas  coisas,  mas  sem  a  coragem  sequer  para  admitir  a  libertinage.
Enquanto  historiador,  sem  filosofia,  sem  o poder  do  olhar  filosófico  —
por  isso  rejeitando  a  tarefa  de  julgar  em  todas  as  questões  principais,
exibindo a “objetividade” como máscara. Comporta-se diferentemente em
relação a todas as coisas em que um gosto refinado, experimentado é a
instância  suprema:  então  tem  realmente  a  coragem  e  o  prazer  consigo
mesmo — então é mestre. — Em alguns aspectos, uma versão preliminar
de Baudelaire. —79

12 Li  a  vida  de  Thomas  Carlyle,  esta  farce  [farsa]  inconsciente  e
involuntária,  essa  interpretação  heróico-moral  de  estados  dispépticos.  —
Carlyle,  um  homem  de  palavras  e  atitudes  fortes,  um  retor  por
necessidade,  constantemente  espicaçado  pelo  anseio  de  uma  forte  fé  e
pelo  sentimento  da  incapacidade  para  ela  (—  nisso  um  típico
romântico!).  O  anseio  de  uma  forte  fé  não é  a  prova  de  uma  forte  fé,
antes  o  contrário.  Tendo-a,  podemos  permitir-nos  o  luxo  do  ceticismo:
somos  seguros  o  bastante,  firmes  o  bastante,  “ligados”  o  bastante  para
isso. Carlyle entorpece algo em si mediante o fortissimo de sua veneração
por homens de forte fé e sua ira contra os menos simples: ele  necessita
de barulho. Uma constante e apaixonada desonestidade consigo — eis o
seu proprium,  com  isso  ele  é  e  permanece  interessante.  —  Sem  dúvida,
na  Inglaterra  ele  é  admirado  precisamente  por  sua  honestidade...  Ora,
isso  é  bem  inglês;  e,  considerando-se  que  os  ingleses  são  o  povo  do
perfeito  cant  [artificialismo,  hipocrisia],  é  até  mesmo  justo,  não  apenas
compreensível.  No  fundo,  Carlyle  é  um  ateísta  inglês  que  busca  sua
honra em não o ser.

14 Anti-Darwin. — No que toca à célebre “luta pela vida”, até agora me
parece  apenas  afirmada  e  não  provada.  Ela  acontece,  mas  como
exceção; o aspecto geral da vida não é a necessidade, a fome, mas antes
a  riqueza,  a  exuberância,  até  mesmo  o  absurdo  esbanjamento  —
quando  se  luta,  luta-se  pelo  poder...  Não  se  deve  confundir  Malthus93
com  a  natureza.  —  Mas,  supondo  que  haja  essa  luta  —  e,  de  fato,  ela
ocorre  —,  infelizmente  ela  resulta  no  contrário  do  que  deseja  a  escola
de Darwin, do que talvez se poderia desejar juntamente com ela: ou seja,
em  detrimento  dos  fortes,  dos  privilegiados,  das  felizes  exceções.  As
espécies não crescem  na  perfeição:  os  fracos  sempre  tornam  a  dominar
os fortes — pois são em maior número, são também  mais inteligentes...
Darwin esqueceu o espírito (— isto é inglês!), os fracos têm mais espírito...
É  preciso  ter  necessidade  de  espírito  para  adquirir  espírito  —  ele  é
perdido, quando não mais se necessita dele. Quem tem força dispensa o
espírito  (—  “deixem  de  lado!”,  pensa-se  hoje  na  Alemanha,  “o  Reich
continuará  nosso”...).94  Entendo  por  espírito,  como  se  vê,  a  cautela,  a
paciência, a astúcia, a dissimulação, o grande autodomínio e tudo o que
seja mimicry [mimetismo] (esse último compreende boa parte do que se
chama virtude)


17.

Os  homens  mais  espirituais,  pressupondo-se  que  sejam  os  mais
corajosos,  também  experimentam  as  mais  dolorosas  tragédias:  mas
justamente  por  isso  eles  honram  a  vida,  porque  ela  lhes  opõe  o  seu
máximo antagonismo.

18.

Sobre a “consciência intelectual”. —  Nada  me  parece  hoje  mais  raro
do  que  a  verdadeira  hipocrisia.  É  grande  minha  suspeita  de  que  o  ar
brando de nossa cultura não seja favorável a esta planta. A hipocrisia é
própria  das  épocas  de  fé  robusta:  quando,  mesmo  havendo  a  coação
para exibir outra fé, não se abandonava a fé que se tinha. Hoje em dia
ela  é  abandonada;  ou,  coisa  mais  habitual,  a  ela  é  acrescentada  uma
segunda fé — em qualquer dos casos, continua-se honesto.  Sem  dúvida,
hoje  é  possível  um  número  de  convicções  bem  maior  do  que  antes:
“possível”  quer  dizer  permitido,  ou  seja,  inofensivo.  Daí  nasce  a
tolerância  consigo  mesmo.  —  A  tolerância  consigo  permite  várias
convicções:  essas  convivem  pacificamente  —  cuidam,  como  todos  hoje
em  dia,  de  não  comprometer-se.  Como  nos  comprometemos  hoje  emdia?  Tendo  coerência.  Andando  em  linha  reta.  Falando  coisas  que
admitem  menos  de  cinco  sentidos.  Sendo  genuínos...  É  grande  meu
temor de que o homem moderno seja simplesmente preguiçoso demais
para  alguns  vícios:  de  modo  que  esses  literalmente  se  extinguem.  Todo
mal que depende de uma vontade forte — e talvez não haja mal sem a
força  da  vontade  —  degenera  em  virtude,  neste  nosso  ar  tépido...  Os
poucos  hipócritas  que  conheci  estavam  imitando  a  hipocrisia:  eram
atores, como uma em cada dez pessoas nos dias de hoje. —

19
Belo e feio. — Nada é mais condicionado, digamos limitado,  do  que
nosso  sentimento  do  belo.  Quem  quiser  pensar  sobre  ele  separado  do
prazer do ser humano com o ser humano logo verá o chão ceder sob
os pés. O “belo em si” é uma mera expressão, não é sequer um conceito.
No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição; em casos
seletos, adora nele a si mesmo. Uma espécie não pode senão dizer Sim a
si mesma desse modo. Seu instinto mais profundo, o da autopreservação
e auto-expansão, ainda se manifesta em tais sublimidades. O ser humano
acredita que o mundo está repleto de beleza — ele esquece de si mesmo
como  causa  dela.  Somente  ele  dotou  o  mundo  de  beleza,  oh,  de  uma
beleza muito humana, demasiado humana... No fundo, o ser humano se
espelha  nas  coisas,  acha  belo  tudo  o  que  lhe  devolve  a  sua  imagem:  o
juízo  “belo”  é  sua  vaidade de espécie...  Pois  o  cético  pode  ouvir  uma
leve  suspeita  lhe  sussurrar  esta  pergunta:  o  mundo  realmente  se  tornou
belo  pelo  fato  de  o  ser  humano  tomá-lo  por  belo?  Ele  o  humanizou:
isso é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que justamente o
ser humano constitua o modelo do belo. Quem sabe como ele se sairia
aos olhos de um mais elevado juiz do gosto? Talvez ousado? Talvez até
divertido? Talvez um pouco arbitrário?... “Ó divino Dionísio, por que me
puxas  as  orelhas?”,  perguntou  Ariadne  ao  seu  filosófico  amante,  num
daqueles  célebres  diálogos  em  Naxos.  “Acho  um  certo  humor  nas  tuas
orelhas, Ariadne: por que não são elas ainda mais compridas?”.97

20.

Nada é belo, apenas  o ser humano  é belo: toda  a estética se baseia
nessa  ingenuidade,  ela  é  sua  verdade  primeira.  Acrescentemos  de
imediato a segunda: nada é feio, exceto o ser humano que degenera  —
com  isso  delimitamos  a  esfera  do  julgamento  estético.  —
Fisiologicamente,  tudo  o  que  é  feio  debilita  e  aflige  o  ser  humano.
Recorda-lhe  declínio,  perigo,  impotência;  faz  com  que  realmente  perca
energia.  Pode-se  medir  com  um  dinamômetro  o  efeito  do  que  é  feio.
Sempre  que  alguém  está  abatido,  pode  sentir  a  proximidade  de  algo“feio”.98 Seu sentimento de poder, sua vontade de poder, sua coragem,
seu  orgulho  —  tudo  isso  cai  com  o  feio,  aumenta  com  o  belo...  Num
caso  e  no  outro  tiramos  uma  conclusão:  as  premissas  para  ela  são
acumuladas de  forma  abundante  no instinto.  O  feio  é  entendido como
sinal  e  sintoma  de  degenerescência:  aquilo  que  recorda  minimamente  a
degenerescência  produz  em  nós  o  juízo  de  “feio”.  Todo  indício  de
esgotamento,  de  idade,  de  peso,  de  cansaço,  toda  espécie  de  falta  de
liberdade,  como  a  convulsão,  como  a  paralisia,  sobretudo  o  cheiro,  a
cor,  a  forma  da  dissolução,  da  decomposição,  ainda  que  na  extrema
rarefação de símbolo — tudo provoca a mesma reação, o juízo de valor
“feio”. Um ódio irrompe: o que odeia aí o ser humano? Não há dúvida:
o declínio de seu tipo.  Ele  odeia  a  partir  do  mais  profundo  instinto  da
espécie: nesse ódio há arrepio, cautela, profundidade, longividência — é
o mais profundo ódio que existe. Por causa dele a arte é profunda...

28.

Os “impessoais” tomam a palavra. — “Nada é mais fácil, para nós, do
que ser sábios, pacientes, superiores. Nós estilamos o óleo da indulgência
e da compaixão, nós somos absurdamente justos, nós perdoamos tudo.
Precisamente  por  isso  deveríamos  ser  mais  rigorosos  conosco;
precisamente por isso deveríamos cultivar,  de  quando  em  quando,  um
pequeno afeto, um pequeno vício afetivo. Talvez seja duro para nós; e
podemos  até  rir,  entre  nós,  do  aspecto  que  então  assumimos.  Mas  de
que adianta! Já não temos nenhuma outra forma de auto-superação: este
é nosso  ascetismo,  nossa  penitência...”  Tornar-se pessoal  —  a  virtude  do
“impessoal”...


37Se nos tornamos mais morais. — Contra a minha noção de “além do
bem e do mal”, como era de esperar, levantou-se toda a  ferocidade  do
embrutecimento moral, que na Alemanha, como se sabe, é tida como a
própria  moral:  eu  teria  belas  histórias  a  contar  a  respeito  disso.
Sobretudo  me  instaram  a  refletir  sobre  a  “inegável  superioridade”  de
nossa  época  no  julgamento  moral,  o  progresso  realmente  obtido  nesse
ponto:  comparado  a  nós,  um  César  Bórgia120  não  poderia
absolutamente  ser  apresentado  como  um  “homem  mais  elevado”,  uma
espécie  de  super-homem,  tal  como  faço...  Um  redator  suíço,  do  Bund,
chegou a “compreender” o sentido de meu livro, não sem expressar seurespeito pela coragem para tal ousadia, no fato de eu propor a abolição
de  todo  sentimento  decente.  Muito  obrigado!121  —  Permito-me,  como
resposta, lançar a pergunta se realmente nos tornamos mais morais. O fato
de  todos  acreditarem  nisso  já  constitui  uma  objeção  a  isso...  Nós,
homens  modernos,  muito  delicados,  muito  suscetíveis,  mostrando  e
recebendo  mil  considerações,  imaginamos  realmente  que  essa  branda
humanidade  que  representamos,  essa  conquistada  unanimidade  na
indulgência,  na  solicitude,  na  mútua  confiança,  seja  um  positivo
progresso,  que  com  isso  deixamos  muito  para  trás  os  homens  do
Renascimento. Mas assim pensa toda época, assim tem de pensar. O certo
é que não podemos nos colocar, ou sequer nos pensar, nas condições
do  Renascimento:  nossos  nervos  não  agüentariam  aquela  realidade,
muito  menos  nossos  músculos.  No  entanto,  essa  incapacidade  não
demonstra  um  progresso,  mas  apenas  outra  constituição,  mais  tardia,
mais  fraca,  delicada,  suscetível,  a  partir  da  qual  se  produz
necessariamente  uma  moral  rica  em  consideração.  Se  dispensássemos
mentalmente  nossa  delicadeza  e  natureza  tardia,  nosso  envelhecimento
fisiológico,  nossa  moral  da  “humanização”  perderia  de  imediato  seu
valor — em si, nenhuma moral tem valor —: até inspiraria desprezo em
nós. Por outro lado, não há dúvida de que nós, modernos, com nossa
humanidade  espessamente  acolchoada,  que  de  modo  nenhum  quer
bater  em  alguma  pedra,  ofereceríamos  aos  contemporâneos  de  César
Bórgia uma comédia de morrer de rir. De fato, somos involuntariamente
cômicos além de qualquer medida, com nossas “virtudes” modernas... A
diminuição dos instintos hostis e que geram desconfiança — este seria o
nosso  “progresso”  —  representa  só  uma  das  conseqüências,  na
diminuição  geral  da  vitalidade:  custa  cem  vezes  mais  esforço,  mais
cautela, levar a efeito uma existência tão condicional e tardia. As pessoas
se ajudam umas às outras; até certo ponto cada qual é doente, cada qual
é  enfermeiro.  Isso,  então,  chama-se  “virtude”  —:  entre  seres  que
conheciam  a  vida  de  outra  forma,  mais  plena,  mais  pródiga,  mais
transbordante,  isto  seria  chamado  diferentemente,  talvez  “covardia”,
“mesquinhez”,  “moral  de  velhas  senhoras”...  Nossa  amenização  dos
costumes — eis minha tese, eis, se quiserem, minha inovação  —  é  uma
conseqüência  do  declínio;  a  natureza  dura  e  terrível  do  costume  pode
ser,  ao  contrário,  conseqüência  do  excesso  de  vida:  pois  então  muita
coisa pode ser arriscada, desafiada e também esbanjada. O que antes era
tempero  da  vida,  para  nós  seria  veneno...  Para  ser  indiferentes  —
também isso é uma forma de força —, somos igualmente velhos demais,
tardios demais: nossa moral da simpatia,122 contra a qual fui o primeiro
a advertir, isso que pode ser chamado impressionisme morale,123  é  mais
uma  expressão  da  superexcitabilidade  fisiológica  que  é  própria  de  tudo
o  que  é  décadent.  Esse  movimento,  que  buscou  se  apresentar
cientificamente  com  a  moral  da  compaixão,  de  Schopenhauer  —
tentativa bastante infeliz! —, é o verdadeiro movimento de décadence  na
moral,  e,  como  tal,  tem  profunda  afinidade  com  a  moral  cristã.  Asépocas  fortes,  as  culturas  nobres  vêem  como  algo  desprezível  a
compaixão,  o  “amor  ao  próximo”,  a  falta  de  amor-próprio  e  de  si
próprio. — As épocas devem ser medidas conforme suas forças positivas
—  e  nisso  a  época  do  Renascimento,  tão  pródiga  e  tão  rica  em
fatalidade,  surge  como  a  última  grande  época,  e  nós,  modernos,  com
nosso  angustiado  cuidado-próprio  e  amor  ao  próximo,  com  nossas
virtudes  de  trabalho,  despretensão,  legalidade,  cientificidade  —
acumuladores,  econômicos,  maquinais  —,  como  uma  época  fraca...
Nossas  virtudes  são  determinadas,  provocadas  por  nossa  fraqueza...  A
“igualdade”,  um  certo  assemelhamento  real  que  acha  expressão  apenas
na  teoria  de  “direitos  iguais”,  é  essencialmente  própria  do  declínio:  o
fosso  entre  um  ser  humano  e  outro,  entre  uma  classe  e  outra,  a
multiplicidade  de  tipos,  a  vontade  de  ser  si  próprio,  de  destacar-se,  isso
que denomino páthos da distância  é  característico  de  toda  época  forte.
A tensão, a distância entre os extremos torna-se hoje cada vez menor —
por  fim,  os  próprios  extremos  se  apagam  até  atingir  a  semelhança...
Todas  as  nossas  teorias  e  constituições  de  Estado,  sem  excluir
absolutamente  o  “Reich”  alemão,  são  decorrências,  conseqüências
necessárias do declínio; o inconsciente efeito da décadence  assenhorou-
se  até  dos  ideais  de  ciências  particulares.  Minha  objeção  a  toda  a
sociologia  de  Inglaterra  e  França  continua  sendo  que  ela  conhece  por
experiência  apenas  as  formas  decaídas  de  sociedade,  e  muito
ingenuamente  toma  os  próprios  instintos  decaídos  como  norma  dos
juízos  de  valor  sociológicos.  A  vida  declinante,  o  decréscimo  de  toda
força  organizadora,  isto  é,  separadora,  abridora  de  fossos,  sub-  e
sobreordenadora,  é  formulada  como  um  ideal  na  sociologia  de  hoje...
Nossos socialistas são décadents, mas também o sr. Herbert Spencer124  é
um décadent — ele vê o triunfo do altruísmo como algo desejável!...



















































Wednesday, October 3, 2018

Riley-Day

Síndrome de Riley-Day é uma desordem do sistema nervoso autônomo que afeta o desenvolvimento e a sobrevivência dos neurônios sensoriais, simpáticos e parassimpático no sistema nervoso autônomo sensorial, resultando variáveis sintomas incluindo: insensibilidade à dor, incapacidade de produzir lágrimas, fraco ,,,

Santos suicidas

Santa Apolônia suicidou. Patrona dos dentistas

Tuesday, October 2, 2018

Amor

quando a vida é vivida com amor ela tem muito mais graça e cor... sem amor ela é arrastada, cinza, preto e branco...

O amor não é uma questão moral (inteligência a serviço da vida). moral é escolha, decisão racional, o amor é sentimento, que assistimos em nós.. surge sem que tenhamos decidido e vai embora sem que nada possamos fazer pra impedir...

Quem ama dá, da por amo... o generoso imita quem ama, ele da pra imitar o que dá por amor... o generoso escolhe, pensa..

Às vezes o amor acaba depois de muito tempo de convivência e vc por compaixão continua exclusivo..








Responsabilidade


A base da responsabilidade á Aristotélica.